[[legacy_image_321410]] 'A divergência e o antagonismo são atributos indispensáveis à política e, em particular, à democracia. Em qualquer grupo humano há visões diferentes, e por vezes opostas, quanto às definições e decisões a serem tomadas. E na política isso se torna mais relevante, uma vez que se trata, em essência, da disputa pelo poder, que implica no uso legítimo da força, baseado em princípios e valores aceitos de modo comum. O que se vê hoje no Brasil, e de certa forma em todo o mundo, é o desvirtuamento dessa lógica. Trata-se da radicalização absoluta, expressa em confronto aberto entre amigos e inimigos. Na política, nunca é demais repetir, há adversários a vencer, jamais inimigos a destruir. A guerra não é a continuação da política por outros meios; ela é o completo fracasso da arte de conversar, discutir e negociar, substituída pela violência sem limites. O ódio prevalece sobre tudo, movendo corações e mentes. Não há diálogo ou entendimento possível, apenas a certeza que o outro, o inimigo, precisa ser inapelavelmente esmagado. O cenário é terrível, na medida em que a polarização invade a vida privada, afetando relações familiares, afetivas e pessoais. Não há tolerância recíproca, e sim a certeza dos erros alheios, impossíveis de serem aceitos ou tolerados. O que teria levado a essa situação? A disputa política sempre existiu, forte e tensa em muitos momentos, mas sem que se perdesse a civilidade e o respeito pela decisão da maioria, que deve levar em conta as minorias. Atualmente, o quadro é outro. De um lado, desaparecem nuances e posições intermediárias. O centro é engolido, a direita capturada e entregue aos braços da extrema-direita. As pessoas fazem escolhas excludentes, não considerando alternativas possíveis. As mídias e redes sociais agravaram mais a situação. Seu avanço e alcance foram e são formidáveis, sem que fossem construídas bases mínimas de educação e conscientização. O resultado são as fake news, propagadas como verdades absolutas e instrumentalizadas por aqueles interessados em dividir. Os indivíduos recebem fluxo fantástico de dados e informações, sem filtros, e fazem uso dele a seu bel prazer, normalmente para confirmar suas opiniões e ideias. O sonho do debate nos meios digitais como forma de esclarecer e avançar fracassou. O resultado é a manutenção do discurso polarizado, unilateral, fanático, insensível, surdo ao contraditório e à contestação. Não será fácil romper esse estado de coisas. Ele é nocivo e tóxico, e não ajuda nem contribui para o desenvolvimento e a prosperidade. O poder de veto prevalece, e a divisão do mundo em certo e errado, bom e mau, Deus e diabo, é acentuada. O saldo é negativo para todos, com a paralisia das decisões, ou com a enorme dificuldade em estabelecer consensos, necessários e indispensáveis à implementação de políticas públicas. A intransigência leva à separação e à desconfiança permanentes. Política não é um jogo de amigos que se entendem, mas de pessoas que devem se respeitar, mesmo diante de posições divergentes. No final das contas, o radicalismo polarizado leva ao ódio permanente, que acabará por levar a conflitos insuperáveis, que ameaçam a própria existência do regime democrático, como demonstram as investidas constantes e não disfarçadas da extrema-direita por todos os lados.