[[legacy_image_307226]] O amor desafia poetas, romancistas, músicos, filósofos. Ele é a razão básica da produção literária ao longo do tempo, assumido como especial e único. Cabe perguntar, então: amar é algo intrínseco ao ser humano? Eu arriscaria dizer que sim. Mesmo entre aqueles que optam por viver sós, sem relações durante a vida, muitos dedicam-se ao transcendental, amando Deus e sublimando suas paixões na divindade. Há quem reduza o amor à esfera biológica. Ou seja, seria a pulsão natural que, a exemplo do que ocorre com todos os animais, aproxima pessoas para garantir a sobrevivência das espécies. Outros apontam que relações amorosas são muito mais construções culturais, desenvolvidas pelo processo civilizatório, impulsionadas e sustentadas pelos romances, poemas, canções e pela própria tradição. Pesquisas recentes mostram que quando alguém se apaixona – e, atenção, aqui há diferença importante entre amor e paixão – várias partes do cérebro atuam em conjunto para liberar substâncias, como dopamina, oxitocina, adrenalina e vasopressina, que provocam sentimentos de euforia, ligação intensa e excitação. A ciência também comprova que existe, sim, o amor à primeira vista, ou seja, o arrebatamento inicial que aproxima duas pessoas, embora a maioria das relações duradouras se baseie no conhecimento, convívio e parceria desenvolvidos na vida em comum. Prefiro deixar de lado as explicações técnicas, sem dedicar-me à fisiologia do amor. Constato que ele existe; é forte, intenso, irresistível. A paixão, especialmente, é avassaladora e destrói limites e convenções. Admito que as relações permanentes – evito chamá-las de eternas – não podem estar baseadas na paixão arrebatada, mas não consigo ver o amor como burocrático, mecânico, repetitivo. Ele se constrói na descoberta e no prazer, e estes precisam ser construídos e renovados a cada dia. Sigo, portanto, encantado com o amor e dedicado a não perder a chama da paixão. Não há restrições de tempo ou espaço: sempre seremos capazes de vencer limites e encontrar maneiras e formas de encontrar a pessoa amada. Sei também que amar implica riscos, e pode levar a tristezas e contrariedades. Vale a pena, entretanto, corrê-los e enfrentá-los, mesmo sabendo que eles existem e podem nos surpreender em algum momento. Amar é a essência de viver. Sem amor, somos autômatos isolados, perdidos, infelizes. Amar é, porém, responsabilidade com o outro, bem como capacidade de dividir e partilhar ações, sonhos e projetos. Isso deve ser natural, espontâneo, permanente. Não significa identidade perfeita: ao contrário, o amor vive do contraditório e da complementaridade, mas revestido e alicerçado na alegria de estar junto. Amor é convívio, troca, embora às vezes com brigas e discussões. Mas é sublime, já que traz conforto, confiança, prazer. Vale a pena mergulhar fundo no amor, sem medos, preconceitos ou desconfianças. Vivê-lo, enfim, na plenitude, com boa dose de paixão em qualquer idade, abertos e prontos todos às experiências que só ele é capaz de nos proporcionar, sempre. Não duvide, portanto, de sua capacidade de amar e de ser amado ou amada. Ela é decisiva e fundamental. Trabalhe, construa, faça projetos, mas jamais desista do amor. Apaixonar-se e viver apaixonado impulsiona e dá sentido à vida.