[[legacy_image_318971]] Era ator em teatro de revista na Boca do Lixo da Capital paulista. Mas dentro do peito fervilhava um desejo incontrolável: caneta Bic, bloco de anotações, fatos e palavras. O jornalismo exigia passagem. Com a ajuda de um repórter amigo do peito foi parar, direto, na chamada grande imprensa. Uma vaga aberta na sucursal de Brasília o transportou de mala e cuia para o Planalto Central. Mais a esposa e três filhos homens, no clamor da adolescência. Sem perda de tempo, resolveu testar seu pecado de mulherengo. Um botão ameaçando desprender-se do paletó foi o pretexto para o pontapé inicial. “Preciso de uma mulher!” Embrulhada em malícia, a exclamação interessou a curiosidade de uma das três repórteres à sua frente. A ousada era mineira de Belo Horizonte, alta, cabelos castanhos, olhos verdes impenetráveis, boca atrevida e roupa ressaltando as formas para lá de perfeitas. Dias depois de pregar o botão, ela receberia, em casa, um telefonema no meio do sábado. “Topa almoçar comigo?” Do outro lado da linha veio a resposta interessada. “Tenho um programinha infantil com a minha filha. Se você não estiver com tanta forme e puder esperar um pouco, seu convite está aceito”. Almoçaram em um restaurante ao lado do Hotel Nacional. Começaram falando da vida e da carreira. Até que as mãos se tocaram por cima da mesa. Os olhares famintos foram o sinal dos desejos comuns e indisfarçáveis. Entregaram-se naquela mesma noite. Não foi apenas a ilusão de uma simpatia fugaz. Havia mais que isso. Passaram a se encontrar nos fins de tarde, na casa dela. Ele, ao encerrar a pescaria de notícias no Itamaraty. Ela, ao completar sua tarefa profissional junto aos índios e aos padres missionários. A paixão foi crescendo rapidamente, com a força de chamas incontroláveis. E não demorou para se transformar em amor. Ela na condição de filial. Matriz era a esposa. Com sinceridade, ou na tentativa de compensá-la, ele dizia que a verdadeira matriz era e sempre seria ela. No mundo real não era assim. A começar do caráter clandestino dos encontros. Muitas vezes o desespero tomava conta dela. Então, sempre protegida pela noite, parava seu Fusca azul na esquina da casa dele. E banhada em lágrimas se perguntava: “O que será que eles estão fazendo? Se acarinhando, se beijando?” O amor prevaleceu acima de tudo. Foram anos de doce cumplicidade. Até que ela precisou, mais que nunca, da presença imediata dele. A queridíssima avó dela morreu. E ele não foi consolá-la, ajudá-la a secar as lágrimas que brotavam sem cessar de seus olhos esmeraldas. Essa falha imperdoável abrandou os fortes laços. A separação foi chegando em conta-gotas. Até esvair-se no fim. Muitos anos depois, em visita dele a Brasília, eles se encontraram na casa dela. Tomaram cerveja e trocaram olhares enlouquecidos. A ânsia do desejo voltou, explosiva. Sob o entardecer incomparável da cidade. O tempo não apagara as brasas. A um leve soprar da saudade desenhou-se um fogaréu lindamente romântico.