( Valter Campanato/ Agência Brasil ) Há mais de duas décadas, vivencio todos os dias o que é, de fato, a Amazônia. Quando me mudei do Rio Grande do Sul para a cidade de Rorainópolis (RR), encontrei uma floresta intocada. Representando a maioria do território amazônico, a minha nova morada contava com espécies de pássaros que sobrevoavam as castanheiras, bananeiras, açaís, pupunhas, andirobas, que se espalhavam pela paisagem. Mas esse cenário ficou cada vez mais raro. Hoje, testemunho profundas mudanças na região. Vivemos os tempos em que o maior bioma do mundo é ameaçado por desmatamentos, queimadas e garimpos. Entre as plantas medicinais que tratam a malária e outras doenças, estão o algodão roxo, o picão, o fedegoso, o jucá, a moringa, o crajiru e tantas outras. Porém, parte delas desapareceu com a derrubada das árvores. O que antes se encontrava no quintal de casa, hoje são necessárias longas caminhadas para conseguir, como exemplifico no meu livro Amazônia e seus Encantos. A vida selvagem se perdeu quase por completo. Os macaquinhos que costumavam se aventurar até a beira da estrada sumiram por completo. As sucuris, reconhecidas por fornecerem uma banha extremamente medicinal, que serve para curar feridas e questões femininas, como eles dizem por aqui “as doenças internas de mulher”, inclusive o câncer, aparecem mortas pelas queimadas. O sul de Roraima, onde moro, é a região de maior desmatamento do estado. Onde foi parar toda essa biodiversidade? Essas áreas foram desmatadas, incendiadas, loteadas, doadas ou vendidas. Parte desses crimes são fruto da troca de votos em época de eleição. As consequências são alarmantes. Conforme os habitats naturais são destruídos, há um empobrecimento da biodiversidade global, ceifando plantas que, muitas vezes, ainda não foram estudadas e, assim, eliminando potenciais descobertas a favor da medicina, além de assoalhando os rios e igarapés. Em uma comunidade indígena do Amajari, apesar das vivências incríveis, uma triste realidade me afetou como pessoa e bióloga. A abundância de insumos para as tradicionais garrafadas, pomadas, xaropes e outros produtos confeccionados por eles, não é mais uma realidade fácil de encontrar. Este é o cenário trazido pelas queimadas e desmatamentos. A Amazônia é um bem da humanidade. Toda a mata tropical deve ser cuidada e preservada pelos países por onde passa. Todo o bioma está interligado, e as políticas de sustentabilidade e conservação podem evitar a perda irreversível da ecologia global. Até quando? Em que momento faremos a diferença e nos salvaremos? *Bióloga e autora da obraAmazônia e seus Encantos