(Reprodução/Senado do Uruguai) As compras, os encontros obrigatórios, as visitas de praxe, o consumo, a pressa, as contas de fim de ano, o perdão e a hipocrisia, o júbilo e a melancolia... Mas onde algum sentido profundo para a existência? Onde alguma transcendência, hoje, no Natal? Agnóstico, vibro por tudo que nos traga algum simbolismo neste ritmo opaco de ganhar a vida sabendo perdê-la por distrair-se nos meios sem nenhum fim. Onde o silêncio em meio tanto ruído sem substância? Onde a paz rendida por tanta competição? Já planejam o Carnaval antes chegado o advento, o agito substituindo a alegria íntima, a fé de fachada numa desigualdade insana. Quando busco alguma aura natalina, contemplo Giotto ou ao ideário de um socialista que se despede, Pepe Mujica. Pitoresco que dois marcos estéticos da véspera sejam obras de gênios homossexuais: a Capela Sistina de Michelângelo e o Quebra- Nozes de Tchaikovski, marcados pelo preconceito. E por qual motivo impomo-nos tanta cobrança, tanta expectativa, tanto esforço motivacional para novos tempos cansados e distraídos do essencial que nos escapa algozes do paraíso terreno. O enlevo, o brilho nos olhos, o sonho vívido não por religiosidade, mas pelo miraculoso do instante que clama. As epifanias que te acorrem quando te permite pensativo, a conversa atenta em meio à epidemia de déficit de atenção, o acionar de tua caixinha de música mental acalentando novos afetos. Alguma transcendência diante de tanta histeria, o despojamento frente tantas promessas sem propósito que não o jogo de aparências. Da minha parte, gostaria superado o poema de Manuel Bandeira escrito no Natal de 1947: “Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / catando comida entre detritos. Quando achava alguma coisa / Não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”. Não desperdicemos energia e haveres, precisamos de espíritos fortes para um planeta cansado. Teu corpo nunca será sarado se não te reinventa. Só a curiosidade é capaz de vencer a superficialidade, só o interesse da alma sobrevive ao fugaz interesse pelas coisas. E alma aqui é conteúdo, recheio neural, conexões com nossas diferenças. O que pode nos redimir são duas abas da mesma face: a natureza que nos cerca e arte moldada como um bom espanto. Eu vi o Natal no rosto do menino que escreveu para o correio pedindo uma bicicleta para ir ao colégio distante. Maravilhe-se a cada momento. *Escritor e membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande