[[legacy_image_277426]] Homossexualidade, termo obsoleto do século 19, remete a sexo, reduz o desejo entre iguais‘à carnalidade. Tratemos a homoafetividade, que já é um conceito amplo o suficiente para não sermos reducionistas. Os gregos tratavam com uma normalidade quase imperativa, entre os romanos não causava escândalo, no auge da Florença renascentista, na França de Orléans ou mesmo na Inglaterra vitoriana não causava espécie, se discreta. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A homoafetividade tem a idade das espécies e entre civilizações mais remotas até tinha um tom ritualístico ou iniciático aos saberes arcanos. Militares? Alexandre e Frederico da Prússia preferiam companheiros às cortesãs. Estadistas virtuosos pela ciência e arte? De Sólon ateniense, passando pelo imperador Adriano até o infante dom Henrique de Sagres, lídimos representantes do amor que não ousava dizer seu nome. Entre as mulheres, de Safo de Lesbos a Virginia Woolf, de Greta Garbo a Eleanor Roosevelt, infindável lista de personalidades que contribuíram com a humanidade. E falando em humanidade, poucos foram tão dignos da nossa quanto o cientista Alan Turing que salvou o mundo do horror nazista solucionando códigos de guerra e criando as bases para o que entendemos computador, internet, era digital. Turing padeceu horror por sua orientação, levado ao suicídio, ainda que hoje celebrado nas notas de 50 libras como herói. Nem tudo são flores, nem tudo arco-iris, nem tudo ferveção. Até hoje não entendo porque gay virou sinônimo de homoafetividade além dos estereótipos caricatos sobre um comportamento homogêneo de euforia entre entendidos. Gay, em inglês, é eufórico e nem de longe foram alegres os martírios a execuções, torturas psicológicas, perseguições e auto-flagelos dos nomeados homossexuais no decorrer da História. Lembrar: perseguições sistematizadas nas civilizações judaico-cristãs. Recomendo este ano ainda um filme que retrata com maestria toda esse calvário dos que penavam no armário para não sucumbir ao preconceito: A esposa de Tchaikovsky. Curioso que no Natal os dois artistas mais lembrados são o compositor do Quebra-nozes e o pintor da Capela Sistina, ambos homossexuais atormentados pela tradição. Inevitável reproduzir um trecho da linda carta de mestre Freud a uma mãe preocupada com destino de seu filho: “Lendo sua carta deduzo que seu filho é homossexual. A homossexualidade não representa uma vantagem, muito menos motivos para se envergonhar (...) Não se trata de doença, só uma variação do desejo. Muitos homens de grande respeito da antiguidade e atualidade foram: Platão, Michelangelo, Leonardo Da Vinci. É uma grande injustiça e crueldade persegui-los. Ao me perguntar se eu posso lhe oferecer a minha ajuda (...) só análise poderá trazer paz psíquica e progresso social sem conflito sendo ou não homossexual”. Um ganho que noto é que as novas gerações tratam a questão gay com uma naturalidade sincera e quase indiferente. A homofobia resiste em bolsões de atraso e estes que cometem o imenso estrago retratado em violência moral e assassinato. Faz cem anos que André Gide publicou o famoso tratado Corydon, mas muita luta ainda resta para o pote de ouro de Dorothy ao fim do arco-iris. Afinal não dizia Einstein: “É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”.