(Reprodução) Incrível como a validação estrangeira reforça a baixa autoestima cultural brasileira e estimula a desmemoriada alma nacional. Como eu gostaria de um Oscar para filmes sobre José Bonifácio ou os irmãos Bartolomeu e Alexandre de Gusmão para lustrar os brios santistas sobre seus vultos intercontinentais. O filme do imenso humanista Walter Salles não é uma obra-prima, mas vale muito pelo tema necessário universalmente. Esteticamente, não tem nada de extraordinário, mas é um imenso manifesto denunciatório contra a brutalidade do Estado contra o cidadão que serviria para a ditadura dos coronéis na Grécia, o horror da Pide salazarista ou a estupidez perpetrada hoje pelo execrável sr. Maduro. Walter, bombardeado pela direita saudosista da ditadura cívico-militar brasileira, fracassada em todos aspectos, tem passado pela ‘lacração’ da esquerda atrasada patrulhando-o por ser bilionário. Nisso sua grandeza: um artista que tem dimensão da desigualdade e dos perigos da plutocracia em nosso subdesenvolvimento. Ainda prefiro o irmão documentarista João Salles, que nos deu um clássico em Santiago. Ainda Estou Aqui fala do martírio do santista Rubens Paiva, trazendo luz a que outros resgatem o assassinato de Wladimir Herzog, do operário olvidado Manoel Fiel Filho ou do também santista Luis Eduardo Rocha Merlino, estudante de Direito trucidado pelo DOI-Codi em 1971. Alguma sutileza na luz e fotografia, aspectos bem ressaltados da brava Eunice Paiva em sua resiliência e superação e, claro, a boa interpretação de Fernanda Torres. Mas não se trata de clássicos em si como A Batalha de Argel ou Desaparecido, de Costa Gravas. O que importa é a visibilidade alcançada pela fita: poucas obras de arte fizeram tão bem à causa democrática quanto a tragédia narrada por Marcelo Paiva. Torço pelo filme como instrumento de conscientização numa quadra dramática da humanidade assanhada por regimes de exceção. Uma tentativa de golpe na Coreia do Sul, o recrudescimento neonazista na Alemanha e a brutalidade chauvinista na Rússia são exemplos do ovo da serpente, agora com a condescendência trumpista. O perigo de tanta euforia com as indicações à estatueta é toldar o essencial em nome do acessório. Depois de décadas, só agora Rubens Paiva teve um atestado de óbito condizente com a verdade. Até a casa cenográfica na Urca tem sido utilizada como ponto turístico, numa descarada futilização da sua trajetória ainda pouco conhecida. O curioso é o quanto Santos tem a ver com as trajetórias de ambas famílias: Paiva e Moreira Salles. Isso fica para outro capítulo. *Escritor, membro das academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos