[[legacy_image_349187]] Esta crônica é um plágio explícito e confessado. A intenção é homenagear o mestre dos mestres da crônica, Rubem Braga, que fez da sua inspiração uma arte inigualável. Em dos seus textos mais notáveis, uma pequena obra-prima fala dos pecados de Copacabana e do castigo do mar. O título é sugestivo: “Ai de ti, Copacabana!” Eu, Santos, que te amo com todas as minhas forças e que passo a vida inteira exaltando tuas belezas e glórias, quero ser sincero para falar de tuas mazelas, que nem de longe rivalizam com teus feitos. Mas que fazem parte do teu ser. Não recebas como críticas, mas como observações construtivas. Que, talvez, possam te ajudar a não repetir velhos erros ou a evitar novos. Por isso, te digo: Ai de ti, Santos, que colocaste Vicente de Carvalho, teu poeta do mar, de costas para o oceano. Ai de ti, Santos, que violaste parte de tuas praias, construindo em plena areia prédios de apartamento. Ai de ti, Santos, que permitiste a poluição de teu mar, onde teus filhos não podem mais nadar, boiar ou mergulhar sem grave risco à saúde. Ai de ti, Santos, que permitiste a destruição, a pauladas, de teus encantadores bondes, pelas razões obscuras da propina solta. Ai de ti, Santos, que estás permitindo, sem resistência, a destruição de teus chalés, bangalôs e sobrados para que no lugar deles subam prédios que cobiçam o céu. Ai de ti, Santos, que criaste praças com nomes de uns e nelas fincaste monumentos com nomes de outros. Ai de ti, Santos, que até agora não autorizaste o alargamento do espaço para que teu maior embaixador, o Santos Futebol Clube, possa expandir a terra santa do seu alçapão glorioso no bairro sacrossanto de Vila Belmiro. Ai de Santos, que na mesma errada toada de um país sem memória, deixas de louvar, com o estrondo devido, teus maiores vultos, a frente dos quais o gigante José Bonifácio. Ai de ti, Santos, que ao contrário dos cariocas permitiste a destruição a picareta da joia que era o Parque Balneário, nosso Copacabana Palace. Ai de ti, Santos, que às vezes tratas com desdém, os chamando negativamente de forasteiros, irmãos de outras plagas que te escolheram como novo lar e aqui vieram com o intuito único de te engrandecer. Ai de ti, Santos, que desperdiçaste tanto tempo e até agora não imaginaste uma barreira sólida e permanente para defender a Ponta da Praia da fúria do mar. Ai de ti, Santos, que permitis, sem dó nem piedade, que pessoas que deveriam ser normais como todos nós, continuem sendo humilhadas como farrapos no Dique da Vila Gilda. Um dia, que todos esperamos mais tarde do que mais cedo, o mar bravio não se contentará em desafiar a Ponta da Praia. Ele se erguerá, como vingador da destruição e de todos os abusos que o homem promove no mundo todo. No nosso caso, invadindo cada canto e deixando debaixo d’água até os morros. Nesse dia, inesquecível Santos, tu cantarás a última canção.