(FreePik) Corto o cabelo com o mesmo barbeiro há décadas. Todo mundo é assim, fiel ao barbeiro, a menos que alguém se mude para bem longe. Quer dizer, nem todo mundo é assim: recentemente, um cliente sentenciou que não mais cortaria o cabelo com meu barbeiro ao descobrir que ele votou no candidato adversário para a Presidência da República. Na cadeira do barbeiro, ainda ouvi outra história: primos que não conviviam mais porque as mães, que eram irmãs, possuíam posições políticas divergentes. Tenho saudade e preguiça. Saudade da época em que os pindoramenses eram agrupados sob critérios que não geravam discórdia, como dividi-los entre os que gostam e os que não gostam de coentro – tempero diante do qual ninguém é indiferente. Preguiça de testemunhar pessoas odiando ou canonizando, incondicionalmente, “ícones” políticos. Particularmente, não odeio políticos (aliás, não odeio ninguém – talvez motivado por sentimento egoísta, na medida em que acredito ser eu mesmo o maior beneficiário dessa postura). Mas, também, não os canonizo. Para mim, muitos deles, se fossem submetidos a processo de decantação na solução aquosa das virtudes, acabariam se depositando no fundo do recipiente – como substâncias que apresentam composições diferentes, mas densidades semelhantes. Embora seja natural que se proclame ser de direita ou de esquerda, o que potencializa minha preguiça é o desmedido esforço para construir argumentos que legitimem as falas e atitudes de um lado e de outro. Em Pindorama, quem é de direita se vê obrigado a elucubrar para defender deputada que, agindo como cangaceira, sai pelas ruas de arma em punho correndo atrás de desafeto político; quem é de esquerda se vê forçado a justificar a conduta de deputada que, sob a bandeira da inclusão e da diversidade, paga seus maquiadores com verba pública. Não importa mais defender a retidão, basta a retórica de que o erro, a falta de propósitos, a desonestidade, a má-fé e o desprezo aos interesses do País são exclusivos de quem representa pensamento político diverso. É vício coletivo, droga alucinógena que se consome em doses cada vez maiores. Porém, por acreditar na capacidade de reflexão por parte do caro leitor, convido-o a se unir numa cruzada para que possamos, longe da distração do debate juvenil sobre direita e esquerda, discutir os reais problemas que impactam a vida de todos nós, como economia, educação e segurança pública. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel PM, advogado e escritor.