(Freepik) A entrevista já estava para terminar, mas a criança se empolgou com a pergunta da psicóloga e do assistente social sobre suas atividades no período complementar à escola e contou. Estava há poucos dias num grupo da plataforma Discord e o “ADM” era muito legal, a criança já imaginava que chegaria a “jagunço”, cargo que o líder dava apenas a membros especiais. Talvez seja legal, talvez passe a não ser, há uma lei para ser promulgada, na esteira da adultização que o Felca – como é raro um influencer querer influenciar para o bem!... - denunciou. Mas apesar da grande importância das legislações cidadãs no Brasil, ainda que essas abordagens de crianças em redes sociais fossem admitidas por lei, elas precisariam ser vistas como socialmente ameaçadoras às crianças. Porque dos ambientes virtuais os assediadores logo passam para a vida real. Outro caso veio por uma mãe cujo filho foi abordado por homens, deu o número do celular e depois teve vídeo com prática sexual divulgado nas redes, com clara identificação da criança. Ela disse ter visto o abusador abordando crianças nas proximidades da escola pública que ele frequentava. Não se trata mais de uma realidade longe, mas na Baixada Santista, os dois casos foram atendidos em Praia Grande. E sugerem uma realidade preocupante: os agressores de crianças estão muito mais avançados que os defensores no espaço virtual, ambiente cultuado pela sociedade em geral, pelas crianças em particular. Urgente empoderar as instituições de defesa das crianças, a começar por famílias e escolas. Primeiro, é preciso conhecer a ameaça e a força dos abusadores – tanto Felca quanto a psicóloga que ele entrevistou em seu vídeo foram ameaçados e perseguidos por suspeitos de abusarem de crianças. É preciso que todos conheçam as táticas dos abusadores, já que a Constituição Brasileira (Artigo 227) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Artigo 4º) estabelecem como obrigação da família, da comunidade e da sociedade a proteção das crianças. Eles se utilizam da necessidade de validação, forte nesta faixa etária, pedem fotos e vídeos comprometedores com promessas de valorização nos grupos virtuais e então ameaçam as crianças com a divulgação do material, conseguindo total domínio da situação. Acionado, o Ministério Público se mostrou disponível e atuante. Mas o momento é de ação dos Conselhos Municipais de Defesa dos Direitos, Conselhos Tutelares, Secretarias Municipais de Educação, de Assistência Social e das Polícias. É preciso perceber que é uma guerra, é importante saber que o inimigo está muito forte, é urgente perceber que estamos perdendo. Mas que podemos virar o jogo. *Maurício de Araújo Zomignani. Assistente social