[[legacy_image_262403]] Ao assumir o poder, em 1974, o general Ernesto Geisel escolheu o embaixador Azeredo da Silveira para ministro das Relações Exteriores. O primeiro telefonema internacional do chanceler foi para Washington, à procura do diplomata Ítalo Zappa. Ele era o embaixador do Brasil junto à Organização dos Estados Americanos (OEA). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! - Zappa, quero convidar você para ser o arquiteto da nossa nova política africana. - Mas, ministro, eu não entendo nada de África. - Pois é, exatamente por isso que estou convocando você. Quero alguém virgem no tema. Livre dos preconceitos que cercam esse assunto. A nova política africana, entre outros pontos, abandonava o apoio a Portugal e passava a privilegiar a independência das suas colônias. Zappa foi um brilhante planejador e executor desse passo corajoso. Um ano depois cheguei a Brasília para ser o correspondente diplomático do jornal O Estado de S. Paulo. Zappa foi o diplomata mais encantador que conheci nessa cobertura nobre. Ele era uma figura. A maioria dos seus colegas ambicionava atuar em países como França, Itália, Inglaterra, Espanha e Alemanha. Zappa, por vontade própria, seria embaixador em Moçambique, Cuba e Vietnã. Ele também adorava contar histórias, várias delas engraçadas. Uma das mais saborosas era o editorial indignado do pequeno jornal de Barra do Piraí, onde ele nasceu, no interior fluminense. Quando o ditador nazista encontrou - se com sua derrocada, o minúsculo veículo de comunicação sapecou: “Do alto destas colunas advertimos o senhor Adolf Hitler. Mas ele não nos deu ouvidos”. Um dia ele me aconselhou: “Se você for à Tanzânia, não deixe de conversar com um dos maiores patriarcas africanos, Julius Nierere. Nem de conhecer a deslumbrante montanha gelada do Kilimanjaro”. Segui os dois conselhos. Passei horas ouvindo os conceitos inteligentes de Nierere e me deslumbrei perante o espetáculo majestoso do Kilimanjaro. Em 1952, a montanha gelada, a maior da África, com 5.895 metros, foi pretexto para um filme com Gregory Peck e Ava Gardner. O filme era baseado principalmente em um belo conto de Ernest Hemingway, As Neves do Kilimanjaro. Para tratar uma perna atacada pela gangrena, o herói da história, Harry, deixa o safari africano em um pequeno avião. O piloto, Compton, aponta com o dedo para a maravilha que está adiante. “Olhe lá, aquilo é tão grande como o mundo, imenso, alto, incrivelmente branco e brilhante à forte luz do sol. É o topo do Kilimanjaro.” Tive a suprema sorte de conhecer o Kilimanjaro há mais de 40 anos. De lá para cá as notícias são tenebrosas. Até 2011, 85% do seu gelo sumiu. Um relatório da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, alertava, em 2012, que até 2021 não haveria nenhuma pequena pedra de gelo na montanha mágica. Dois anos se passaram após essa sentença de morte. Ainda resta uma pálida lembrança da imponência do Kilimanjaro. Mas a triste cerimônia do adeus não para de atormentar os amantes de sua antiga beleza.