<p data-path-to-node="2">O primeiro turno de 2026 terminou com 33,4 milhões de eleitores ausentes, 21,08% do eleitorado apto, a maior abstenção em eleições gerais desde 1998, segundo o TSE. Brancos e nulos somaram 4,77% dos votos para presidente, quase 6 milhões.</p> <p data-path-to-node="3">Aqui, convém olhar a série histórica antes de falar em recorde. Em 2022, esses votos ficaram em 4,41%, o menor patamar desde 1994. Em 1998, chegaram a 18,7%. O dado atual supera o anterior, mas está longe de ser inédito.</p> <p data-path-to-node="4">Como o voto é obrigatório, branco e nulo permitem comparecer sem delegar, e o nulo pode reunir protesto, erro ou desinformação. Em 2022, a polarização foi apontada como causa da queda de brancos e nulos. Em 2026, a mesma polarização aparece como explicação para o desânimo. Por isso, brancos e nulos medem mal a descrença, porque reúnem ações de natureza distinta.</p> <p data-path-to-node="5">Quem se afasta tem perfil: em 2022, 55% das abstenções vieram de eleitores com no máximo o Ensino Fundamental.</p> <p data-path-to-node="6">As mulheres fazem o movimento contrário: são maioria do eleitorado e comparecem mais. Câmara e Senado seguem longe de refletir essa maioria, e o mesmo vale para pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+. Elas votam, mas não se veem eleitas.</p> <p data-path-to-node="7">O porquê passa pela distância entre o voto e a vida. Direitos civis e políticos têm efetividade limitada quando direitos econômicos e sociais não se materializam.</p> <p data-path-to-node="8">A Emenda Constitucional 95, de 2016, que congelou gastos públicos, marcou o desfinanciamento de políticas que chegam primeiro, ou deixam de chegar, às mulheres pobres e negras. Quando o que se decide nas eleições não alcança o cotidiano, a desconfiança cresce.</p> <p data-path-to-node="9">Parte dessa desconfiança é fabricada. O ataque às urnas eletrônicas e o 8 de janeiro de 2023 mostram uma descrença produzida politicamente, com ajuda de plataformas que lucram com a desinformação. Sobre esse terreno, projetos antissistema, em especial a extrema direita, se apresentam como alternativa ao eleitorado que vê o Partido dos Trabalhadores mais como parte do sistema estabelecido do que como promessa de mudança.</p> <p data-path-to-node="10">Uma democracia medida apenas pela presença na urna não enxerga quem vota sem ser representada nem quem se ausenta sem ter sido ouvido. Em 2026, ficou à mostra a distância entre o direito de votar e a possibilidade de alterar, pelo voto, a própria vida. Enquanto ela existir, o comparecimento seguirá sendo um indicador insuficiente para a saúde democrática.</p> <p data-path-to-node="11">*Bruna Andrade Irineu. Assistente social, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), escritora e pesquisadora em Políticas Públicas, Gênero e Direitos Humanos</p>