[[legacy_image_300441]] Os isentos de problemas cognitivos não são contra mulheres, negros e trans – citados em mera ordem alfabética (peço desculpas ao caro leitor por ser enfadonho ao repetir tal afirmação, exaustivamente registrada em crônicas anteriores). Aliás, não basta não ser contra, é fundamental agir quando se depara com episódio de discriminação por gênero ou cor. Mulheres, negros e trans devem ter as mesmas oportunidades disponíveis aos homens brancos e héteros (inclusive aos de olhos azuis, mencionados, certa vez, em tom sarcástico, pelo presidente da República de Pindorama). Preterir alguém em razão de aspectos relacionados ao gênero ou à cor da pele é uma das mais expressivas formas de manifestação da estupidez humana contemporânea (há outras tantas, como atirar lixo pela janela do carro). As oportunidades (especialmente, ensino de qualidade) devem ser ofertadas a todos indistintamente. A escola, por exemplo, deve proporcionar ambiente seguro para pessoas trans, livre de crimes de ódio. Por outro lado, não é razoável que alguém obtenha uma vaga de emprego, uma promoção ou qualquer ganho profissional pela exclusiva condição de ser mulher, negro ou trans. O desprezo à meritocracia traduz involução da civilização. Imaginemos o seguinte exemplo hipotético: uma ativista trans e negra dá entrada num hospital para realizar uma complexa cirurgia no cérebro. Diante da estimada longa duração da operação, serão necessários 3 neurocirurgiões que se revezarão durante o delicado procedimento. A equipe disponível é composta por neurocirurgiões homens brancos e héteros, a qual já realizou inúmeros procedimentos semelhantes com alta margem de êxito. É possível à paciente optar por trocar algum dos neurocirurgiões por uma mulher, um negro ou uma pessoa trans (há tais profissionais no portfólio disponibilizado por seu plano de saúde). A troca, segundo as estatísticas, reduziria consideravelmente as chances de êxito na complexa cirurgia. A ativista internada deveria se submeter a seis mãos brancas de homens héteros ou deveria, numa ação afirmativa, substituir os médicos em prestígio à diversidade? À margem de exemplos hipotéticos, as situações da vida real em que a meritocracia é deixada de lado são mais sutis, digamos, menos didáticas. Há poucos dias, uma ancora de telejornal afirmou que, na então esperada reforma ministerial, não seria possível retirar uma mulher de algum ministério – como se a substituição de uma mulher por um homem afrontasse os mais basilares princípios da boa governança. Discurso semelhante vem ecoando quando se noticia a aposentadoria da ministra Rosa Weber. Há pressão para que sua cadeira no STF seja ocupada por outra mulher. É inegável que a magistratura do País reúne inúmeras mulheres com currículo à altura de compor o STF, mas o gênero feminino (ou qualquer gênero) não pode servir como critério preliminar para a nomeação. A ascensão profissional ou social deve ocorrer não pelo fato de alguém ser mulher, negro ou trans, e sim, simplesmente, por não fazer a mínima diferença o fato de ser mulher, negro ou trans. E sonho com esse dia.