(Gerada por IA) Escrever é meu ofício. Mas sempre foi prazer e encantamento. Apesar da minha formação em Ciências Exatas (sou engenheiro), mergulhei cedo nos livros: leitor voraz e interessado em qualquer assunto, logo me atrevi a produzir textos. Escrevia muitas cartas na infância e adolescência, participei de concursos literários e publiquei meu primeiro artigo aqui em A Tribuna aos 20 anos. No jornal, fui editorialista por muito tempo. Nos últimos 30 anos, envolvido pela academia (fiz mestrado e doutorado em Ciência Política), tornei-me professor e pesquisador na área, e assim escrevi livros, organizei coletâneas, produzi dezenas de artigos publicados em periódicos. Sentia falta, porém, de um voo mais ousado: a ficção. Resolvi enfrentar o desafio. Levou muito tempo, com idas e vindas, avanços e retrocessos, muitas dúvidas e incertezas. Inspirava-me a história da família materna, que ouvi desde cedo. Meus trisavós, de origem espanhola, radicaram-se na França e lá desenvolveram seus talentos e habilidades. Eram artistas de teatro, dançarinos exímios. Meu trisavô Francisco Escudero era coreógrafo ou, como se dizia à época, mestre de balé e mímica. A esposa, Barbara, dançava a seu lado, especialmente peças da escola bolera, precursora do flamenco. Em 1863, já com três filhas, receberam proposta para uma temporada no Brasil, para apresentar-se no famoso Teatro Alcazar Lírico, do Rio de Janeiro. E não hesitaram: enfrentaram a travessia do Atlântico (deixando na França um filho recém-nascido, já que era impossível trazê-lo em tão arriscada viagem) e aqui ficaram um ano, com grande êxito. Apresentaram-se ainda em Montevidéu e Buenos Aires, e após um desastre financeiro na capital argentina (perderam tudo ao investir em um teatro local), voltaram ao Brasil. Francisco foi coreógrafo criativo e brilhante, mas empresário fracassado, que, após viver muitos anos no Rio de Janeiro, deslocou-se para Minas Gerais, vivendo em São João del Rei e Juiz de Fora. Tiveram outros filhos brasileiros e hoje seus descendentes contam-se às centenas. É a história fascinante de uma família incomum: letrados, cultos e liberais, confrontaram-se com a realidade brasileira da segunda metade do século 19, um país de escravos (que eles não aceitavam) e ainda muito conservador. O romance que escrevi, A Xícara de Prata, retrata as peripécias e aventuras dos Escudero: amores, tragédias, traições, sonhos e desilusões. Vou lançá-lo hoje, na Pinacoteca Benedicto Calixto, a partir das 17 horas. Haverá um brinde especial: dança da época, apresentada por jovens primos, que descendem de Barbara e Francisco. Convido aqueles que se interessarem a comparecer e conhecer um pouco a história do teatro no Brasil na segunda metade do século 19, em um romance escrito com emoção e sentimento. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)