[[legacy_image_343988]] Neste último final de semana, encontrei um amigo de longa data, geralmente alegre e otimista. Percebendo-o muito abatido, lhe perguntei a razão. Ele, então, justificou seu estado de ânimo contando-me um fato terrível por ele presenciado. Foi assim o seu relato: a tragédia aconteceu há poucos dias. Era uma noite nublada; o vento frio espargia um fino chuvisco, impossível de conter com um simples guarda-chuva. Eu acabava de sair do escritório e caminhava distraído pela calçada, reclamando do tempo e pensando na alegria de rever os meus filhos após um dia cansativo. Ao aproximar-me do estacionamento, presenciei uma cena que infelizmente está se tornando corriqueira. Dois marginais, um deles armado, cercavam uma pessoa. Gritavam ameaças e exigiam-lhe seus pertences: carteira, celular e uma mochila pendurada em seu ombro, onde geralmente é levado o notebook. A pessoa poderia ser qualquer um: eu, você ou um amigo querido. O nome? Fulano, Beltrano… O pobre homem, assustado e impotente, paralisado frente à arma, não apresentou nenhuma reação, apenas abraçou sua mochila. Podia observar-se, mesmo de longe, o terror estampado em sua face. Um medo a cada dia mais comum em nosso tempo, ampliado pelo negrume da noite. Após alguns momentos, o marginal armado, irado pela demora em ser atendido, insano, grita: “demorô”, “demorô”! E aciona seu berro sem nenhuma hesitação. Como a vida é fugaz! Disse meu amigo. Bastou um flash, um estampido ensurdecedor e uma vida se extinguiu. No momento em que tais demonstrações de violência acontecem, torna-se difícil conceder ao homem algum valor transcendente. Não se pode atribuir nenhuma culpa à arma ou à bala: o gatilho foi acionado, o cão picotou a espoleta e o chumbo cumpriu o destino para o qual foi criado. A direção foi-lhe imposta pelo cano raiado: um olho negro e frio, fixado impassível no coração. Os marginais, após o malfeito, correram sem levar o butim. Levaram somente uma vida. O Fulano ou Beltrano jazia no chão. Olhos arregalados, fixos em um céu alheio ao drama daquele ser caído na calçada recém-pintada de vermelho sangue por uma tinta aguada, escorrendo lentamente pela sarjeta para um bueiro próximo: uma boca negra e sedenta, exigindo mais. Alguns minutos após, chegou a polícia. Várias viaturas, com suas sirenes ligadas, gritavam aflitas uma urgência inútil. À procura de provas, um dos policiais pegou a mochila caída ao lado do corpo, abriu para verificar seu conteúdo e constatou que em seu interior nada havia de valor. Entretanto, observou que entre os vários materiais de escritório havia uma folha dobrada. A curiosidade o fez desdobrá-la. Nela, havia um desenho rústico e revelador feito por uma criança: representava um garotinho segurando a mão de um adulto. Embaixo das figuras desenhadas havia uma singela legenda: “Papai, te amo”. O policial, emocionado, sem querer expor sua sensibilidade frente aos colegas, dobrou rapidamente a folha, recolocou-a na mochila e deu continuidade às medidas de praxe para tal ocorrência. Hoje - disse meu amigo - cenas como essa, divulgadas continuamente pela mídia, se tornaram tão comuns que nem mesmo afetam a sensibilidade de muitos de nós. No entanto, eu, que presenciei ao vivo, me senti inconformado, revoltado a ponto de desejar a morte daqueles marginais. Tive então um feio vislumbre de minha própria incivilidade. Naquela tragédia - concluiu o amigo - a morte não passava de um mero detalhe: um BO, numa noite gélida, chuvosa, sem estrelas e aparentemente… sem Deus. E eu, neste impávido colosso, assistindo a tudo, chorava.