Quando comecei a me entender por gente, devia ter uns quatro ou cinco anos, e já estava cercado pelo mundo da arte. Meus pais viviam dela: pintura e desenho não eram hobby, eram sustento. Cresci entre telas, porcelanas pintadas, vitrais em processo e música clássica ao fundo. Um ambiente que, para mim, era simplesmente o normal. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquela fase, eu não tinha maturidade para me declarar “amante da arte”. Tudo era tão presente no dia a dia que parecia tão comum quanto escovar os dentes. Na infância e na juventude, mesmo com outros interesses, desenhar e pintar apareciam de forma despretensiosa, quase como um hábito silencioso. A vida seguiu seu rumo e a graduação me levou ao mundo corporativo, onde permaneci por décadas. Foi uma trajetória satisfatória, cheia de aprendizado, mas também marcada pelo ritmo intenso, prazos e compromissos e pela curiosa habilidade de transformar café em reunião. Até que chegou a aposentadoria e, com ela, uma pergunta inevitável: o que fazer com o tempo que antes parecia sempre faltar e agora, de repente, resolveu sobrar? A resposta, no meu caso, foi simples, mas o ponto principal não é qual atividade escolher, e sim escolher alguma. A aposentadoria amplia o tempo, mas não vem com manual de instruções. Sem direção, os dias podem se alongar mais do que fila de supermercado antes do feriado. Troquei planilhas, reuniões e viagens por lápis, tintas e papéis em um pequeno ateliê improvisado. Mais do que uma mudança de rotina, foi uma mudança de ritmo. Descobri que o silêncio, raro na vida profissional, é fértil quando se trata de observar, criar e até colocar as ideias em ordem. Não se trata de talento ou vocação extraordinária. Trata-se de disposição. Persistência vale mais do que inspiração quando o objetivo é dar sentido ao tempo disponível. E isso serve para qualquer caminho: arte, leitura, viagens, aprendizado, sem culpa e sem relógio olhando feio. Com o tempo, fica claro que a aposentadoria não é um ponto final, mas uma vírgula generosa. É a oportunidade de reescrever a própria rotina com mais autonomia e menos pressão. Não é sobre preencher um vazio, mas sobre ocupar bem o tempo, de preferência com algo que dê vontade de repetir no dia seguinte. No fim, a grande escolha não é entre pintar, viajar ou aprender algo novo. É entre deixar o tempo passar ou decidir como vivê-lo. E essa decisão, talvez pela primeira vez, pode ser tomada sem pressa, o que já é um excelente começo.