Uma afirmação estranha, mas não totalmente injusta. Na ficção, a mentira não pesa como culpa. Ao tentarmos reproduzir um fato, não apenas o colorimos ou deturpamos, inventamos histórias conforme o nosso olhar sobre a realidade que vivemos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Lá se vão 41 anos. Eu me lembro bem. Assisti, no Teatro dos Quatro, à peça Assim é (se lhe parece), de Pirandello. Marcou a fala: “Eu sou aquela que se crê que eu seja”. A frase implode a ideia de uma verdade única. A identidade da personagem não é uma questão de fato, mas de fé, percepção e escolha de quem observa. O desfecho não soluciona o impasse, pois reafirma a lição de que o mistério é insolúvel e a busca por uma resposta única é, ela mesma, uma forma de tirania. A escritora espanhola Rosa Montero escreve em A Louca da Casa: “A narrativa é a arte primordial dos humanos. Para existir, precisamos nos contar. E, nesse processo, não faltam lorotas: mentimos, imaginamos, enganamos a nós mesmos. O que lembramos hoje da infância pode ser muito diferente do que lembraremos daqui a vinte anos”. Essa “mentira” é um ato de criação. Escolhemos, recortamos, reorganizamos — e, assim, nos tornamos a história que contamos. O esquecimento, que costumamos associar à perda, talvez seja defesa. Lembrar de tudo seria insuportável. A mente seleciona, reorganiza, apaga — e, nesse processo, reescreve o que fomos. No limiar do sono, memórias surgem desconexas, depois se rearranjam. É assim que reconstruímos nossa história — às vezes, ligeiramente melhor do que foi. E é essa capacidade de reinventar nossas memórias que nos torna grandes contadores de histórias. Se todos lembrássemos da mesma forma, da história só haveria registro. A diversidade de experiências e perspectivas é o que mantém a vitalidade e a pluralidade da nossa cultura. Quando pergunta se ver a verdade seria diferente de inventá-la, sugere que só tocamos o real ao tentar dizê-lo — e que toda invenção carrega, ainda assim, um núcleo de verdade. Uns são mais contadores de histórias do que outros. Com essa capacidade, escritores e artistas têm o privilégio de viver vários personagens, absorvendo o melhor de cada um. Porém, há quem diga, como o escritor Oscar Wilde, que a vida imita a arte — talvez porque aprendamos a viver pelas histórias que contamos. E assim seguimos, tecendo histórias e reinventando o passado; o suficiente para suportar o que lembramos.