[[legacy_image_257727]] Um dos mais renomados especialistas em estatística, o britânico David Spiegelhalter, faz alguns alertas importantes sobre a ciência dos dados e sua utilização no livro A Arte da Estatística – como aprender a partir de dados, recentemente traduzido no Brasil. Logo no início, ele deixa claro que a estatística pode trazer clareza e compreensão dos problemas com que nos defrontamos, mas também pode ser usada de maneira abusiva, muitas vezes para promover opiniões ou simplesmente para chamar a atenção. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Dados não são oráculos nem a verdade completa e final. Eles não permitem, por si só, a compreensão real do mundo, e têm duas limitações básicas: são quase sempre uma medida imperfeita daquilo em que estamos realmente interessados, e qualquer coisa que escolhamos medir ou mensurar difere de um lugar para outro, de uma pessoa para outra, de um tempo para outro, e o problema é extrair percepções significativas de toda essa variabilidade aparentemente aleatória. Em qualquer pesquisa, é fundamental definir e compreender o problema em questão para em seguida estabelecer um plano de estudo, coletar os dados, que são importantes, mas não decisivos em si mesmos: eles exigem seleção e busca de padrões para finalmente poder-se chegar a interpretações e conclusões. É preciso, enfim, ter espírito crítico e questionar. Em que medida os dados são dignos de confiança? A matéria em questão está sendo distorcida ou serve a interesses ou pontos de vista anteriormente estabelecidos? As hipóteses iniciais foram, de fato, testadas em profundidade e validadas por critérios científicos? E principalmente: não vale, jamais, selecionar dados que nos interessam para confirmar nossas ideias, descartando ou deixando de lado outras informações que podem contradizer o que desejamos. Infelizmente, em muitos casos os dados servem para difundir ideias preconcebidas, mesmo quando os pesquisadores não se dão conta disso. Pode-se afirmar que não há cientista ou pesquisador neutro, sem ideologia ou pontos de vista estabelecidos. Isso não deve servir, porém, de álibi para justificar qualquer atitude ou conclusão. Os dados não são absolutos e resposta definitiva: ao contrário, são pistas que devem orientar o trabalho de forma isenta e responsável. Exige-se, enfim, uma ética dos dados, na qual os processos decorrentes deles sejam honestos e transparentes, ao mesmo tempo que se busque construir uma ciência honesta e reproduzível, com comunicação confiável. Ou seja: é preciso responsabilidade para coletar, tratar e apresentar dados. Longe de mim negar o seu valor, uma vez que informações completas, sistemáticas e elaboradas são fundamentais para compreender a realidade. Mas apresentar apenas números enfileirados não é suficiente. É necessário verificar se não são um recorte da realidade, uma visão parcial do todo, que pode ser contradita por outra série de dados. Prever resultados a partir de dados é possível, ainda que isso esteja sempre dentro de margens de erro estatísticas e possam surgir fatores que são muitas vezes impossíveis de controlar, mesmo na mais séria das pesquisas. Números e dados não são o frio retrato da realidade; são matéria-prima para reflexão e análise que não podem ser arrogantes e donas da verdade absoluta.