O Brasil chegou aos 76 anos de expectativa de vida. Uma vitória? Talvez. Mas o brasileiro é um otimista patológico: acredita piamente que vai viver até os 80, mesmo que tropece em buracos de calçada, mesmo que a fila do SUS seja um purgatório. O brasileiro envelhece como quem joga na loteria: com fé. Na Europa, a velhice é quase uma profissão. Lá o sujeito passa dos 80 como quem passa o tempo — entre vinhos, caminhadas e hospitais que funcionam. Mas cuidado: o velho europeu, apesar da longevidade, vive a melancolia de saber que sua vida já não cresce em anos. A curva parou. Envelhecem muito, mas não cada vez mais. Na África, a velhice é um luxo. Muitos não chegam sequer aos 65. A morte vem cedo, de malária, de guerra, de fome — como uma visita íntima e cotidiana. Lá, um idoso é quase uma aparição sagrada: quem chega a velhice é sobrevivente, herói de guerra contra a vida. Na América do Sul, vivemos no meio-termo da tragédia: o Chile e o Uruguai ostentam velhos saudáveis, quase europeus. Já na Bolívia, a velhice é breve, uma pressa. E o Brasil, sempre ambíguo, vive essa dualidade: uns chegam aos 80 correndo maratona, outros mal completam 60, arrastando-se em filas intermináveis. O que explica? Renda, saneamento, hospitais, comida no prato. É simples e cruel. Onde há Estado forte, vive-se mais. Onde a vida vale pouco, a morte é precoce. A Europa plantou sua longevidade com décadas de políticas públicas. A África ainda luta para plantar o básico. Nós, latinos, ficamos no limbo: não morremos cedo demais, nem vivemos tanto quanto sonhamos. No fim, não é questão de contar anos. É questão de viver — ou vegetar. Não basta ter 80 anos se esses anos são passados diante de uma televisão quebrada, com as pernas frágeis e a memória em frangalhos. O que vale é ter a força de subir um ônibus sem ajuda, de andar na rua sem medo de cair. No Brasil, os velhos invadem academias. Fazem musculação, levantam ferro, desafiam o destino. Criam uma poupança de músculos como quem cria uma conta secreta contra a morte. Talvez a verdadeira expectativa de vida não seja de 76 ou 80 anos, mas o instante em que o velho brasileiro, entre halteres e esteiras, prova ao mundo que ainda está vivo. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo