(Reprodução) O tempo, inclemente, não cessa devorar seus testemunhos, mas a literatura dribla e vence o olvidamento dos seus heróis no mais das vezes. Já escasseia os que conviveram com Patrícia Galvão, mantendo acesa sua chama revolucionária. Revolucionária pelas armas da Arte. Numa segunda-feira fria de julho, com o Santos vencendo na Vila, pude sentir toda atmosfera cultivada da Era Pagu em nossa cidade gloriosa. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A imensa escritora brasileira Maria Valéria Rezende lançou um delicioso livro de reminiscências de duas gigantes em seus tempos: de Pagu e dela mesmo, Valéria, inscrita no cânone literário nacional. Aquela esquina da Livraria Martins Fontes guarda uma ressonância, feito os círculos duma pedra num lago formando círculos que vão dar longe. Ali o Bar Regina, cenário de quase todo livro Patricia Galvão: Pagu, militante irredutível. Geraldo Ferraz foi contratado secretário de redação de A Tribuna em 1954 ao lado de Pagu. Um erudito e uma sensível dama marcada pelo sofrimento, um corpanzil de raro jornalismo por todos os poros e sua fragilizada combatente. Podia-se dizer que Diego Rivera e Frida Kahlo emprestando todo seu lastro de cultura à redação da General Câmara, 90, onde Santos era peça chave entre o suicídio de Vargas e os primórdios do golpe. Maria Valéria faz parte de um seleto grupo de sobreviventes em franca atividade ainda hoje. Emularam todo saber de Pagu meus queridos amigos Carlos Conde, jornalista nato que ao lado de Juarez Bahia marcaria o pós-Geraldo Ferraz em A Tribuna, e o bravo vereador Luiz Corvo, que faria carreira brilhante no Direito e hoje dedicado a precioso memorialismo. Ainda Teresa Vasquez, viúva do mestre Cid Marcus, que fazia parte do núcleo de jovenzinhos ligados ao Clube de Arte, de Mário Gruber e Gilberto Mendes, e ao Clube do Cinema, de Maurice Legeard. Toda essa cornucópia de agito cultural era fruto da presença de Pagu e do apoio de A Tribuna, através de sua Comissão de Cultura. Louvo a confiança de Manoel Nascimento e Giusfredo Santini em depositar tanta crença no trabalho do casal Patrícia-Geraldo, ainda que tanto peso ideológico lhes pesassem numa cidade com sua metade conservadora. A lacração e o cancelamento não boicotaram a maestria de ambos. Lendo sobre Pagu, já bebericando no Gonzaga toldado de neblina hibernal pude sentir nofog a dissipação da sua ausência. Pagu, sorvendo seu Samba em Berlim, Coca-Cola com aguardente, drinque criado por sugestão de Grande Otelo a Orson Welles, no Rio, pela falta de gin durante a guerra. E como pegou a mistura em Santos na Era Pagu! A diva modernista que esperava Geraldo fechar a edição do jornal na boca da madrugada, descer do bonde 2 pela Ana Costa e acolher paciente a já decaída deusa. À mesa do Regina, cercada por Plínio Marcos, Edmar Cid Ferreira, Saulo Ramos e um jovem que se tornaria nosso maior autor infantojuvenil, o também vivo Pedro Bandeira. Se Os Cadernos de Pagu, da querida Lucia Teixeira, deram-me argumento para muita pesquisa e substrato em crítica literária, Patrícia, de Maria Valéria, é como um roteiro pronto de exegese de nossa história cultural nos anos dourados. Como diz a escritora, “toda memória é ficção e toda ficção é memória, não há fronteira entre a memória e a ficção”. Assim presentifico ao meu lado Pagu.