[[legacy_image_347144]] Os ciclos literários de Santos para o Brasil podem ser contados pelas fases da redação de A Tribuna. Literatura e vida socioeconômicas, assim como arte em geral, andam juntas. No começo do século 20. Santos era estrela de primeira grandeza com três poetas “tribuneiros” dos mais lidos do Brasil: Vicente de Carvalho, Martins Fontes e Ribeiro Couto. Um jovem poeta santense que trabalhou desde as oficinas do jornal até as editorias é hoje considerado um dos pais do teatro do absurdo. Paulo Gonçalves, que partiu cedo, fez história com uma peça antológica para a dramaturgia brasileira: A Comédia do Coração. De origem humilde, mais um gênio negro de nossas letras, Paulo seria catapultado à ribalta por Procópio Ferreira e hoje é tese de doutorado como pioneiro do surrealismo no teatro latino-americano. Depois do fim da Segunda Guerra, irrompe uma geração de jovens antenados com o melhor das estéticas surgidas no Ocidente, das vanguardas na prosa de Joyce até a poética de Ezra Pound. Eram os “pesquisistas” santistas Roldão Mendes Rosa, Narciso de Andrade e Cassiano Nunes. Todos “tribuneiros” desde sempre. Num estrato tradicional, já que o modernismo renegava as academias, sob a égide do jovem Saulo Ramos surge a ideia, em 1955, da criação de uma Academia Santistas de Letras. O poeta de Brodowski não tinha nem um ano como repórter caiçara e já faria história em nossa terra. Saulo convoca a elite intelectual da cidade tendo expoentes a sobrinha de Vicente de Carvalho, Maria José Aranha de Rezende, o professor Archimedes Bava, Cid Silveira, do clã de Valdomiro e Miroel Silveira, um discreto crítico literário do jornal dos melhores amigos do embaixador Ribeiro Couto, Álvaro Augusto Lopes e monsenhor Primo Vieira. Vieira honrava o sobrenome, foi exímio tribuno sacro e poeta sutilíssimo em versos curtos que lembravam mestre Manoel de Barros. Goiano, fez época nas letras e no ensino daqui sem olvidar suas raízes, também membro da Academia de Letras de seu estado. Dispensa enfatizar que nossa Academia foi gestada no burburinho das máquinas elétricas, entre baforadas e cafés nervosos de A Tribuna. Nos anos 70, na resistência contra a ditadura e na onda da geração mimeógrafo que bombava no Rio, a rapaziada saída dos cursos de Comunicações inseriu de novo Santos no contexto nacional com o grupo Picaré, tendo o timoneiro Raul Christiano Sanches. Inventividade na forma e irreverência no conteúdo foram o caldo cultural que levaria Santos a restituir sua autonomia política em 1984. De novo, na maior parte, “tribuneiros”. Além de gerações e confrades literários, destaco duas “personas” distintas que passaram e honram com seus talentos o amor pelo jornal ainda. Adelto Gonçalves, romancista, catedrático respeitado internacionalmente e que há muito deveria representar São Paulo na Academia Brasileira de Letras. E como não ressaltar o repórter por essência que ocupou todos os meandros da profissão e nos fascina com a pesquisa histórica, tendo o mar cenário mítico. José Carlos Silvares, gentleman, meu conterrâneo “boqueirens”, encarna como ninguém todo desvelo de quem atuou com galhardia e perpetua mesmo amor por A Tribuna. Minha geração surgida nos anos 80 para a literatura ganhou espaço nas crônicas pelas mãos e cérebro privilegiado de Clóvis Galvão. Já faz 25 anos que aqui imprimo minhas impressões do mundo graças à insistência do sobrinho de Pagu. Isso aí é outra história, porque Clóvis pede um texto à parte...