[[legacy_image_344988]] Corria o ano de 1954, mais precisamente agosto de 1954, e um jovem advogado com paixão pelo jornalismo é admitido aos quadros de A Tribuna. Impossível época mais impiedosa a um foca que o suicídio de um presidente da República. E foi Vargas. Saulo Ramos viera da pequenina Brodowski, que entrou para a história como terra de Portinari, que o pintara ainda meninote. Era poeta, apaixonado mesmo por literatura e começaria a carreira sob a égide do impiedoso Geraldo Ferraz. Impiedoso no trato profissional, não perdoava burrice, chegava a ser cruel com literatos de província. Geraldo, com profundas convicções humanistas, marido de antológico zelo pela já fragilizada Pagu, só tinha na carranca e na obsessão pelo texto impecável algum traço de mau. Seu apelido nas rodas intelectuais brasileiras era “o açougueiro”; tão mal encarado quanto o romancista Somerset Maugham, que por sinal foi entrevistado por outro excelente escritor colaborador de A Tribuna, Nelson Salazar Marques. Nelson é um grande injustiçado pela crítica. Sua novela O Grande Dobson, inspirada na vida do célebre Heleno de Freitas, craque maldito do futebol nacional, é um primor. Reputo sua coleção de relatos Memórias de um Mundo Submerso um marco no memorialismo de nossa literatura. Voltando a Saulo, uma passagem ainda novato selaria seu futuro. Perseguidor voraz da boa notícia, fascinado pelo ambiente litorâneo, frequentador do Palácio dos Campos Elíseos e bem relacionado com poetas como Guilherme de Almeida, era o jornalista culto num tempo em que jornalista e culto quase soava pleonasmo, uma obviedade. Já criador de uma coluna pioneira de “fait divers” ou notas breves sobre política e economia denominada Semanascópio, que faria sensação no meio paulista a partir da redação da General Câmara. Num certo domingo tórrido de folga, parando num bar de posto de gasolina no Guarujá, depara um certo senhor empertigado folheando A Tribuna e nota justamente em sua coluna. Encontra um jeito de ser apresentado por saber da relevância do atento leitor. Bebericando uma caipirinha, o então meteórico prefeito de São Paulo, Jânio Quadros. Estaria selada uma amizade por toda vida depois de contadas oito caipirinhas divididas entre os novos amigos. Saulo acompanharia Jânio como oficial de gabinete na breve Presidência, solidificaria a carreira jurídica até chegar a consultor geral da República e o ministério da Justiça no Governo Sarney. Saulo foi um poeta razoável sempre em torno da temática do café, mas foi nas suas reminiscências reunidas com o pomposo título de Código da Vida que escancara seu amor e dívida ao jornal A Tribuna, numa reverência de gratidão rara nos homens públicos brasileiros. Diz em sua nostálgica obra, recomendada aos leitores, que A Tribuna bem merece livros sobre sua trajetória, como o que Pedro Bial escreveu sobre O Globo, 30 anos mais jovem. Essa lacuna foi em grande parte suprida pelo belíssimo trabalho que Arminda Augusto e Sergio Williams empreenderam em 130 anos em Fatos e Fotos - Jornal A Tribuna, num esmerado resgate dessa jornada. Código da Vida, de Saulo, é das mais saborosas obras sobre um Brasil que A Tribuna cobriu e onde o poeta de Brodowski foi protagonista desde que começou nessas mesmas páginas onde escrevo.