(Pixabay) Gosto da agudeza e precisão com que o economista Eduardo Giannetti explora temas como identidade, cultura e história econômica. Por isso, retorno com frequência a algumas de suas obras, entre elas O Elogio do Vira-Lata. Ao relê-la, revisito uma metáfora incômoda — e profundamente brasileira. Durante anos, associamos o vira-lata à ideia de insuficiência — herança do chamado complexo de vira-lata, expressão cunhada por Nelson Rodrigues após a Copa do Mundo de 1950. Cristalizou-se, então, a sensação de inferioridade diante do estrangeiro, como se estivéssemos sempre aquém de um padrão ideal. É justamente essa percepção que o livro procura deslocar. Em vez de reforçar o estigma, transforma-o em força simbólica. O vira-lata deixa de significar falta de linhagem para representar mistura, resistência e capacidade de adaptação. O cão sem pedigree sobrevive porque aprende a ler o ambiente, a improvisar, a reinventar caminhos. Não seria essa também uma imagem precisa de nossa formação cultural? O Brasil nasceu do encontro, muitas vezes desigual, entre matrizes diversas. Nossa língua, nossa música, nossa literatura e nossas formas de convivência resultam desse cruzamento permanente. A pureza nunca foi nossa marca; a mistura, sim. E talvez resida justamente aí a originalidade de nossa experiência histórica. Ao elogiar o vira-lata, o autor não romantiza precariedades nem naturaliza desigualdades. O que afirma é a criatividade que emerge da adversidade. O improviso pode revelar carência, mas também inteligência adaptativa. A informalidade pode expor fragilidades institucionais e, ao mesmo tempo, demonstrar flexibilidade cultural. Há, evidentemente, um risco: confundir resistência com resignação. Exaltar nossa capacidade de “dar um jeito” não pode significar acomodação diante das injustiças. O reconhecimento de virtudes não substitui a necessidade de transformação social. Ainda assim, o ensaio de Eduardo Giannetti aponta para uma autoestima mais madura. Identidade não é singularidade absoluta, mas processo. Somos fruto de cruzamentos, influências e deslocamentos. Assumir-nos como vira-latas pode ser menos um gesto de conformismo e mais um ato de liberdade cultural. Talvez o verdadeiro elogio esteja na coragem de reconhecer quem somos — sem pedir pedigree, sem buscar validação externa. Há dignidade na mistura. Há força no que sobreviveu, transformou e criou. Reconhecer isso não nos diminui; ao contrário, nos situa com mais lucidez diante de nossa própria história. *Taís Curi. Jornalista, escritora, presidente da Academia Santista de Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da União Brasileira de Escritores