A noite fria banhava a cidade em chuva fina, numa quarta-feira de inverno. Ao caminhar pela calçada, em direção ao carro, fui surpreendido por um jovem que emergiu das sombras, conduzindo um rottweiler imponente. O rosnado grave do animal que avançava me imobilizou. A silhueta musculosa do cão, forjado para a guarda, anunciava sua força colossal, e um arrepio gélido percorreu minha espinha. A imprevisibilidade da natureza canina, ali manifesta, exigiu uma pausa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Com apreensão evidente, questionei o condutor: “O que devo fazer? Permanecer estático? Continuar andando?” Minha inquietação cresceu ao constatar a ausência de focinheira ou coleira de estrangulamento. Embora a agressividade intrínseca dessa raça raramente se manifeste sem motivo, a garantia de domínio sobre aquela potência física pendia de um fio tênue, confiada apenas à força de seu tutor. Percebendo minha hesitação e a agitação crescente do companheiro, que demonstrava clara intenção de avançar, o tutor buscou reverter a tensão. Com um movimento ágil, enrolou a guia no pescoço do cão, empurrando-o contra o tronco de uma árvore. Naquele brevíssimo interlúdio, a adrenalina pulsou. Sem alardes, sem movimentos bruscos, e evitando a impulsividade da corrida, acionei o controle remoto do abrir as portas do meu veiculo e nele mergulhei; num átimo de segundo, estava refugiado no seu interior e o clique das travas das portas selou uma proteção conquistada. Pelo vidro do para-brisa, se via o rottweiler mover-se em círculos inquietos, reagindo com vigor apesar dos visíveis esforços de seu condutor para contê-lo. Aquele confronto, suspenso no fio da navalha da noite, gravou em mim marcas profundas de reflexão. A cena escura vivida na Avenida Bernardino de Campos (Canal 2), em Santos, ressoa diretamente na lição imortal da fábula de Esopo: O Cão, O Galo e a Raposa. A narrativa alegórica afirma que “a vigilância constante previne o ataque astuto da raposa”. O filósofo grego nos ensinou que prudência e precaução são as únicas muralhas capazes de sustar o dano irreparável. Os sensatos antecipam as ameaças e preparam sua proteção antes que o mal aconteça. Na vida em sociedade, o dever ético e jurídico nos obriga a agir como o “porteiro atento” do nosso espaço, garantindo que nossas atitudes e gestão da condução de nossos “pets” em logradouros públicos e ou locais de domínio privado não ofereçam danos físicos, morais e ou um simples constrangimento. Antecipar o imprevisível é o primeiro e crucial passo da prudência. Nosso dever de cuidados exige mais do que a mera prevenção de acidentes; demanda que nossa conduta no mundo não exponha o próximo a riscos desnecessários, decorrentes de descuidos ou falta de atenção. Ao combater a negligência e cultivar a cautela, fortalecemos o pacto civilizatório – um acordo fundamental para a manutenção da harmonia e da responsabilidade social.