[[legacy_image_336493]] A Meta, dona do WhatsApp, Facebook e Instagram, busca conhecer os hábitos e formas de vida da população do planeta. Seus negócios bilionários dependem de respostas não apenas às demandas da sociedade, mas da percepção do que são, querem e fazem as pessoas no seu cotidiano. Nesse sentido, a empresa de Mark Zuckerberg contratou o Instituto Gallup para realizar uma pesquisa em 142 países que apontou que 24% da população se sente muito ou razoavelmente solitária. É um dado impressionante. Considerando o universo dos países pesquisados, cerca de um bilhão de pessoas estaria nessa condição, número que deve ser muito maior porque a China não foi incluída no levantamento. O percentual é o mesmo para homens e mulheres e, quanto ao Brasil, 15% disseram que estão sós. Em um país cuja imagem é de pessoas extrovertidas, alegres e amigáveis por natureza, o número de solitários é expressivo: 30 milhões de pessoas. A pesquisa não mostrou se isso é considerado um problema para os entrevistados, nem explorou, é evidente, as causas e consequências da solidão. Interessa sublinhar ponto muito importante no tema. Há diferença entre ser só e estar só. No primeiro caso, a solidão tem a ver com a individualidade humana, influenciada pela cultura a partir do século 18, que sublinhou a privacidade como elemento fundamental na vida das pessoas. Eu diria que compreender a natureza da solidão dá sentido à vida humana. Nada de tragédia ou depressão; não se trata, portanto, do isolamento angustiante que ameaça tanta gente. Somos indivíduos singulares, com gostos, interesses e paixões peculiares, e tal condição é essencial para a vida social. O grande desastre que algumas distopias revelam é a padronização de comportamentos: as pessoas vivendo como gado, insensíveis e submissas. Este é o sonho e a aspiração dos regimes autoritários e totalitários, ou seja, controlar corações e mentes das populações que deixam de pensar, refletir e agir baseadas em suas aspirações, e simplesmente seguem, submissas e cegas, as ordens que emanam do chefe supremo. Longe de mim sugerir que o individualismo consumista, típico das sociedades capitalistas, é um ideal de vida. E vou além: as preocupações sociais, o respeito ao outro e o horror à desigualdade apenas são possíveis a partir da conscientização que cada um deve fazer sobre si mesmo e sobre o mundo que nos cerca. Ter, muito mais do que ser, é deturpação da natureza e exercício de violência contra cada um e contra todos. Estar só, ao contrário, não é, na maioria dos casos, ato que exprime vontade e decisão. Decorre de múltiplos fatores - psicológicos, econômicos, sociais - e perturba e incomoda sobremaneira o equilíbrio individual, levando à tristeza e à infelicidade crônicas. Ser só, porém, não é escolha; é imposição e conquista que todos deveriam buscar ao longo da vida, como manifestação autêntica da individualidade consciente. Sei que há autêntica economia da solidão, que explora ao máximo o fato de as pessoas estarem vivendo sozinhas. É nisso que a Meta certamente está de olho, de modo a maximizar seus lucros. Para a empresa, o importante é que os indivíduos estejam sós, comprando e consumindo cada vez mais. Nascemos e morremos sozinhos, e nossas vidas devem maximizar as relações com os outros a partir desta perspectiva: somos sós.