(Freepik) Em 2025, foram registrados 546.254 afastamentos por transtornos mentais e comportamentais. É o maior número da série histórica. Nunca houve tantos afastamentos por transtornos mentais no Brasil. Ansiedade, depressão, burnout e outros problemas relacionados ao trabalho deixaram de ser casos isolados para se tornarem um fenômeno coletivo. O que vemos hoje, porém, não surgiu da noite para o dia. É o resultado de décadas de normalização da sobrecarga, da pressão excessiva, do assédio e da ideia de que adoecer pelo trabalho é apenas parte do preço do sucesso profissional. A atualização da NR-1, ao exigir que as empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais, representou um marco importante. Pela primeira vez, a legislação brasileira passou a reconhecer de forma expressa que a organização do trabalho também pode adoecer. Mas é preciso dizer algo que nem sempre é posto em perspectiva: a NR-1 não chegou com atraso de alguns meses. Ela chegou com atraso de décadas. Durante muito tempo, a saúde mental foi tratada como um problema individual. O trabalhador era considerado fraco, despreparado ou incapaz de lidar com pressão. Enquanto isso, metas inalcançáveis, jornadas excessivas, equipes reduzidas, lideranças despreparadas e a cultura da disponibilidade permanente continuavam sendo tratadas como sinais de eficiência. O adiamento da fiscalização não criou esse problema. Ele apenas revelou algo que já estava presente: nossa dificuldade histórica em tratar a saúde mental como um tema que exige urgência. Sempre que um assunto é considerado prioritário, não se pergunta se a sociedade está pronta. Simplesmente se age. Foi assim com máquinas sem proteção, equipamentos de segurança e outras medidas voltadas à integridade física do trabalhador. Quando o tema é saúde mental, entretanto, ainda parecemos confortáveis em discutir se o momento é adequado. O trabalhador que desenvolveu burnout neste ano não está em período educativo. A mãe que retorna ao trabalho após um afastamento por depressão não teve sua dor prorrogada por portaria. Isso não significa ignorar as dificuldades enfrentadas pelas empresas, especialmente as de médio porte. Implementar mudanças exige investimento, planejamento e adaptação. Mas também exige reconhecer que o problema existe e que já custou caro demais. A pergunta, portanto, talvez não seja por que a fiscalização da NR-1 foi adiada. A pergunta é por que precisamos de tantos adiamentos para enfrentar um problema que já se anunciava havia anos. A saúde mental finalmente entrou na NR-1. Resta saber quando entrará, de forma definitiva, na cultura das empresas e nas prioridades do país. *Priscila Arraes Reino. Advogada trabalhista e previdenciária, especialista em acidentes de trabalho e doenças ocupacionais e autora do livro Burnout Tem Lei