Quando eu era criança, dava para reconhecer uma casa de longe. Não pelo número, mas pelo jeito. Aquela tinha o portão de ferro com desenhos que alguém soldou à mão. A outra, um mosaico de cacos de cerâmica no muro, cada pedacinho num tom, como se o pedreiro tivesse resolvido ali que o dia merecia cor. Na casa da esquina, azulejos pintados na fachada. Na da frente, uma varanda com piso quadriculado. Com os carros era igual. A rua era uma coleção: o Fusca amarelo, a Brasília laranja, a Kombi de duas cores, o Chevette verde que o vizinho lavava todo domingo. Cada modelo tinha um rosto e a gente, criança, sabia o nome de todos só de olhar. Hoje eu olho o estacionamento do mercado e preciso procurar o logotipo para saber de que marca é o carro. Cinza, preto, branco, prata. Uma fila de pedras polidas. E havia o Fusca azul, que era quase uma entidade. Quem via um tinha o direito, e a obrigação, de dar um tapa em quem estivesse ao lado. Eu fiz questão de passar isso para o meu filho: se vir um Fusca azul, já sabe o que fazer. Ele ri, bate e eu sinto que estou entregando a ele uma herança pequena e muito séria. O problema é que a cada ano é mais difícil encontrar um. Até a brincadeira está ficando sem carro. Porque não são só as casas e os carros que perderam a cor. As brincadeiras também estão acabando. Hoje as crianças ficam coladas no celular, quando antes a gente gastava o dia inteiro tentando ser criança: correr, inventar regra, ralar o joelho, voltar para casa já no escuro. Apesar de ter crescido num apartamento no Jaú, em Santos, e ter regras rígidas para brincar fora de casa, ainda consegui aproveitar um pouco essa fase. E aqui eu me pego numa armadilha. Isso que estou dizendo é exatamente o papo dos nossos pais, que diziam que “na minha época é que era bom”. Eu ouvia aquilo revirando os olhos, e nunca imaginei que um dia fosse falar a mesma coisa. Não quero ser igual a eles nesse ponto. Sei que havia casa feia, carro ruim e criança entediada, e que a memória só guarda o que valeu a pena. Mas talvez o que me incomode não seja o tempo que passou, e sim a sensação de que deixamos de arriscar. Trocamos o mosaico pela parede lisa, o azul-metálico pelo cinza-cimento, a rua pelo celular, e chamamos isso de progresso, quando é só medo de errar. Não quero dizer que era melhor nem saudosismo bobo. É só a vontade de manter acesa alguma coisa que era nossa, nem que seja a urgência de dar um tapa no braço de alguém quando passar um Fusca azul. *Bacharel em História