Outro dia deparei-me com artigo de uma pessoa bem sucedida, provavelmente – quase certo – nascida em berço de ouro, que avaliava governos comparando apenas posições em rankings internacionais. É comum ver análises que utilizam quedas relativas em listas de competitividade, PIB per capita ou percepção de corrupção entre 2002 e a atualidade para decretar o fracasso de gestões populares. No entanto, esse exercício frequentemente desconsidera tanto a metodologia estatística quanto a disparidade social de um país com mais de 214 milhões de habitantes. Primeiro, há um equívoco metodológico ao atribuir a trajetória de mais de duas décadas a um único governante. O Brasil atravessou períodos com projetos econômicos antagônicos: a estabilização institucional dos anos 1990, a expansão social e de consumo nos anos 2000, a severa recessão de 2015-2016 e as reformas liberais recentes. Além disso, posições em rankings oscilam pela entrada de novos países ou mudanças de critérios: em termos absolutos, o IDH brasileiro avançou de forma contínua por anos, refletindo ganhos reais em longevidade e escolarização. Comparações com economias emergentes do Leste Europeu ou do Sudeste Asiático que avançaram mais rápido revelam outro gargalo de escala. Com raras exceções, essas nações possuem populações que equivalem a frações de estados brasileiros, o que impõe desafios fiscais, de governança e infraestrutura incomparavelmente menores que os de um território continental. O ponto mais sensível, contudo, é o lugar social de quem julga. Desqualificar a defesa apaixonada de um governo como mero fanatismo ignora que o critério de sucesso muda drasticamente conforme a classe social. Para quem já desfruta de conforto financeiro, a eficiência do ambiente de negócios e a produtividade de mercado são as prioridades. Mas para dezenas de milhões que vivem na base da pirâmide, a métrica prioritária foi colocar comida na mesa, ter acesso à energia elétrica, ver o salário mínimo crescer acima da inflação e colocar o primeiro filho na universidade. A busca por maior produtividade e reformas que destravem a competitividade externa é indispensável para o futuro. No entanto, medir o êxito histórico de uma liderança apenas pela régua do mercado corporativo apaga a conquista mais urgente de uma nação desigual: a garantia da dignidade material de seu povo. *Portuário aposentado e advogado