(Prefeitura de Santos/Divulgação) Foi ainda no início dos anos de 1980 quando fiz uma reportagem para A Tribuna na Ilha Diana, na época um bairro pouco conhecido de Santos. Eu e o saudoso amigo fotógrafo Carlos Marques desembarcamos na ilha e fomos entrando, desvendando lugares, casas e moradores. Logo nos indicaram a dona Dina, a moradora mais antiga daquela vila remota. E fomos procurá-la. Ela nos recebeu muito bem, na sala de sua casa de madeira. Nos revelou detalhes dos primórdios do bairro e na reportagem divulguei dados que ainda eram desconhecidos por mim e por muitos santistas. Dona Dina, na verdade Antônia Bittencourt de Souza, que morou na ilha desde 1934 com o marido e seis filhos adotivos, faleceu em 2011, aos 94 anos. Mas havia um outro morador que nos surpreenderia pouco depois, naquela área que fica num cotovelo do Rio Diana. Nós o encontramos numa espécie de boteco, muito simples. Ele segurava um copinho de pinga e nos ofereceu um gole. Muito falante, soubemos que atuava como pescador no rio e no mangue. Era conhecido ali como Bastião. E foi assim que o chamamos. A conversa tomou o rumo de um convite, para que fôssemos conhecer o seu barraco. Seguimos por uma trilha encharcada, em que o único barulho era de nossos pés afundando na lama. Minutos depois, já nos fundos da ilha, surgiu o barraco, muito pequeno, de um cômodo, montado sobre tijolos. Foi a primeira sensação que tive de sua solidão ali. Estava tão feliz com as visitas em seu barraco e nos perguntou se poderia oferecer um amboré com bananas. Ergueu com as mãos, como um troféu, dois pequenos peixes que pareciam estar há dias numa velha panela. Ao lado, um recipiente com bananas verdes, e alguns ingredientes. Era tudo o que tinha no barraco. Encheu com água a velha panela sobre o fogareiro, acrescentou os peixes, as bananas e os temperos. Durante a conversa mexeu aquele cozido com uma colher e, com os olhos brilhando, apagou o fogo e tampou a panela com um prato de alumínio, o único do barraco. Deixou cozinhando por mais uns minutos e, sentindo-se o chef ali, tirou um bocado da panela e depositou no prato que a cobria. Confesso que o perfume do cozido abriu o apetite. Ofereceu primeiro a mim. O pedaço de peixe com banana na colher estava uma delícia. Faltou a farofa, mas me calei. Serviu o Carlos e deixou a porção dele para o final. Foram duas horas de convívio ali, e nos retiramos agradecidos. Esse fato, de uma simplicidade ímpar, foi um ensinamento de modo prático de que a doação a desconhecidos oferecida por aquele pescador de uma ilha então isolada de todos é o que muitas vezes nos falta. Abraço, Bastião, onde quer que esteja. *José Carlos Silvares. Jornalista e escritor