[[legacy_image_263506]] Um detalhe chamava a atenção de todos naquela manhã ensolarada de domingo. Vivíamos a dor da separação: a professora havia partido e celebrávamos sua vida e história enquanto as cerimônias aconteciam. Naquelas poucas horas foram chegando parentes e amigos que se abraçavam em meio às recordações e lembranças. Havia, porém, algo especial: o espaço foi se enchendo de rostos desconhecidos, com idades variadas. Eram homens e mulheres que fizeram questão de prestar homenagem à professora e coordenadora de sempre, que dedicou sua existência a ensinar e formar jovens para a vida. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Espalhafatosa, barulhenta, desbocada, mas intensamente humana. Durante mais de 30 anos dedicou-se, dia após dia, não apenas à tarefa de educar, mas de conduzir as centenas, talvez milhares, de crianças que passaram por suas mãos. Não tinha papas na língua, como se diz: era franca, direta, objetiva. Mas nunca descuidou de ninguém. Um anônimo que acompanhava o seu velório, comovido e emocionado, fez questão de dizer que ela o havia ajudado muito, e ele fazia questão de ali estar no último momento. Assim era. Estava sempre pronta para ouvir e aconselhar. Apesar da vida difícil que teve, e de tantos dissabores que enfrentou, não perdia o entusiasmo e a alegria. Falava alto, ria com vontade, seus espirros eram ouvidos à distância. A coragem marcou sua vida: enfrentou e venceu os traiçoeiros cânceres que a atingiram. O primeiro há quase 20 anos, que provocou a primeira mastectomia e o tratamento com quimioterapia e radioterapia; o segundo, mais de dez anos após, repetindo a situação anterior. O terceiro, no fígado, veio sorrateiro, mas fatal. No final das contas, porém, ela viveu e triunfou. Nunca se deixou levar pelo medo e desesperança, e seguiu firme até o último dia. Lembro-me dela com carinho especial: afinal, era minha irmã, nascida quatro anos depois de mim. Minhas recordações retrocedem ao dia em que ela chegou em casa após o parto; seu batizado no dia de Natal; sua chupeta que tinha uma proteção de plástico. Apesar da diferença de idade e dos sexos diferentes, brincamos muito juntos. Simulávamos lutas de espadas com réguas de madeira; jogávamos bola (aquele jogo de ordem, seu lugar, sem rir, sem falar, com um pé, com o outro, com uma mão, com a outra, bate palma, e por aí afora). Nossos destinos foram distintos: eu fui estudar em São Paulo; ela, menina, continuou em casa. E nossos mundos acabaram diferentes, eu, sério, estudioso, compenetrado; ela, brincalhona, divertida, ruidosa. Pois é, Maria Valéria, assim foi. Que pena que você partiu tão cedo quando ainda tinha tanto a fazer por aqui e poderia certamente ter alegrado as vidas de tantos. Ficou, porém, seu legado de mãe, mulher e principalmente de professora, sua vocação natural. Provavelmente, fiel a seu estilo, você desdenharia disso, dizendo que fez e fazia o que a vida lhe trouxe. Não: você foi um exemplo e tantos alunos, alguns com mais de 50 anos, fizeram questão de lhe dizer isso naquele domingo. Saudade é palavra fácil, mas simples e profunda. Gostava muito de você: eu gostaria de ter dito isso de alguma maneira a você e nunca o fiz. Paciência, você certamente entendeu e hoje, mais do que nunca, sabe o quanto sinto sua falta. Até um dia, irmã.