[[legacy_image_329451]] Já discorri aqui sobre o quintal de meus avós maternos, na Rua Oswaldo Cruz, Boqueirão, em Santos. Nos meus 5 a 8 anos, aquela área me parecia um “latifúndio”, tantas eram as árvores frutíferas, o galinheiro, os cães e gatos. Toda tarde, saindo da escola, eu partia direto para lá. Era o meu espaço de diversão, meu refúgio, um playground pleno de ar puro e terra batida. Pois era ali, depois de subir no pé de carambolas e saboreá-las lá de cima, descer em direção à goiabeira, às pitangas e ameixas amarelas, correr atrás das galinhas e do galo, aventurar-me nos fundos sombrios dos muros vizinhos, suado e encardido, anunciava a mim mesmo o fim das brincadeiras e a necessidade de me refrescar num objeto que, acho, não existe mais nas casas destas plagas. O verão era escaldante. Talvez nem tanto como nos dias atuais, mas o clima projetava nas crianças com tanta vitalidade um suor diferente, de gotas escuras, mais grossas e salgadas. Era ali debaixo de um tanque de alvenaria, no espaço coberto destinado às conversas diárias entre os avós, as tias e o tio, que eu vislumbrava o objeto reluzente - uma enorme tina de latão, já bastante usada pelo esfregar das roupas. Não era tão pesada para a idade da época, mas era fácil de arrastar até uma torneira instalada na divisa entre esse espaço coberto e um corredor abaixo da escada externa que dava acesso aos quartos de cima. Pensando hoje, com minha lembrança do passado, a tina deveria ter cerca de um metro e meio, por 80 centímetros. Uma enormidade. Nem esperava a tina encher por completo. Nos primeiros jatos de água lá estava eu a debater-me nos poucos centímetros molhados de minha piscina olímpica. Ficava ali por horas, até a ponta dos dedos enrugarem. Havia sempre uma toalha providencial esperando o fim da diversão. E havia na mesa da copa um lanche especial à espera, quase sempre um pão com manteiga, um pedaço de queijo e um copo de leite açucarado. Dali para casa, quase em frente, a esperar o sono e o dia seguinte. Já tomei muitos banhos em mares, rios, cachoeiras, lagoas e piscinas daqui e do exterior, banhos de chuva, e, claro, no chuveiro de casa. Mas nada se compara àqueles banhos na tina de latão da casa de meus avós. Foi assim durante algum tempo, até que outras motivações me afastaram dali. Vi, depois, na banheirinha das filhas e netos, a mesma emoção esfuziante de banhar-se, do bater as mãozinhas na água, dos olhos molhados, daquele refrescor necessário para acalmar e dormir melhor. São memórias que o tempo não esquece. De um passado feliz, vibrante, encardido, molhado, nunca necessariamente nessa ordem, e das tinas de latão, minha primeira piscina e que se transformaram em saudade.