Em minha aldeia, há uma praça. Muitos nem percebem, mas nela há uma estátua. A praça serve de passagem para quem cruza a avenida, depois de ladear a Matriz, para alcançar a Prefeitura. E muitos que chegam à rua de trás nem percebem que, no meio do caminho, há uma praça e que nela mora uma estátua. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Essa estátua é de um homem. Talvez seja de bronze, embora o homem, quando era de carne, tenha sentido dor, mas não se deixado desatinar por ela. Antes de ser estátua, foi poeta, soldado, amante, menino. Esse menino recebeu nos lábios o seio da mãe, que o alimentou e fez dele um ser de carne, amante, soldado, poeta e, por fim, estátua numa praça de minha aldeia. Os homens e mulheres de minha aldeia são de carne. Seus olhos, embaçados de fuligem e fumaça, correm pelas ruas sem alcançar o homem de bronze. Por isso, não sabem como se chama. Talvez também desconheçam o nome da praça pela qual passam diariamente. Ambos, porém, remetem à Lusitânia, pois um dia passaram por mares nunca dantes navegados e por cá aportaram. Também nós aportamos por estas terras. Espremidos entre a serra e o mar, disputamos espaço com fábricas e chaminés. Embora haja no centro uma praça e um homem de sotaques distantes, o cantar das falas daqui traz outro tom: o das terras do Nordeste, quentes e fervorosas. O homem de bronze lutou, foi prisioneiro, nadou e escreveu versos. Os homens daqui migraram, ergueram estradas e construíram fábricas. Um deles, ébrio de paixão e talvez cachaça, caminhava numa noite abafada quando reparou na estátua. Diante dela, calou-se a fama das vitórias de Alexandre e Trajano, pois o homem daqui queria falar. E falou: — Caramba, um gigante de ouro! Olhos arregalados, fitou a estátua. Fez uma genuflexão, mãos no peito, depois postas. Dedo na testa, no peito, ombro esquerdo, direito, beijinho no indicador dobrado. — Ela vai voltar, não vai? Traz ela pra mim, meu santinho! Deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos da estátua. Depois, virou-se para a Prefeitura e seguiu. Talvez sentisse que a vida é um andar solitário entre a gente, pois, distante da amada, transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar. E imaginou. E imaginamos. Pois aqui, ainda que nossas armas e barões não sejam assinalados, somos terra onde canta o coração, mesmo quando não reconhecemos o poeta. Queria reconhecer o amador, saber de sua amada, saber seu nome. Mas não pude. Restou-me saber os outros nomes: o da praça, Portugal; o da estátua, Luís de Camões; e o da minha aldeia, Cubatão.