(FreePik) O ambiente corporativo costuma usar duas expressões para tentar explicar as dificuldades de lidar com o mundo atual: Vuca e Bani. Ambas vêm do inglês e representam, respectivamente, “volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade” e “fragilidade, ansiedade, não linearidade e incompreensão”. Nesse cenário caótico, que afeta tanto empresários e gestores quanto a vida cotidiana de todos nós, muitos se aproveitam da superconexão proporcionada por celulares, redes sociais e e-mails para vender cursos, fórmulas, recomendações e previsões, quase sempre com a promessa de influenciar decisões importantes. Muitas vezes essas “vendas” vêm disfarçadas de histórias pessoais com milhões de espectadores ávidos por soluções rápidas. Na Medicina, o problema é mais evidente: uma enxurrada de auto-diagnósticos, automedicação e obsessão por corpos perfeitos. Mas essa dinâmica não é exclusiva da saúde. Nas redes sociais, é comum ver conceitos mal interpretados sendo replicados indiscriminadamente. Empresas recém-fundadas, em setores tradicionais, se autodenominam startups, comerciantes de pequeno porte se apresentam como CEO. Pode parecer preciosismo, ou até conservadorismo da minha parte. Mas o ponto é que falar sobre contabilidade, direito tributário, riscos, juros futuros não é tão atrativo quanto contar histórias de empreendedores improváveis, quase sempre vendidos como regra. Um dos efeitos dessa narrativa é que muitos jovens passaram a defender que não é mais necessário cursar uma faculdade ou se especializar, afinal Bill Gates, Zuckerberg e Steve Jobs “também não fizeram”. O que muitos não sabem é que esses casos são exceções raríssimas. Na realidade, mais de 90% dos fundadores das 100 maiores startups do mundo (as chamadas unicórnios) possuem diploma universitário e mais de 70% têm MBA. Acredito que formações com base sólida e tradicional, ainda que ensinadas de forma moderna, são mais úteis ao empresário real. Na minha visão, não faz sentido alguém dizer que está pronto para escalar sua empresa se não sabe ler um balanço, uma DRE ou um fluxo de caixa. Enquanto isso acontecer, vamos continuar assistindo a empresas que quebram em sua melhor fase porque o dono não entende a diferença entre lucro e geração de caixa. Ou porque o sócio que cuidava das finanças “sumiu com o dinheiro”. Eu sei, empresário, que você é especialista no seu ramo. Mas a verdade é que você vai precisar entender um pouco desses temas, ou seguirá como passageiro de um carro dirigido por terceiros sem o mesmo cuidado que o seu. *Walter Moreira Neto. Gestor de fundo de investimento com atuação em conselhos de empresas.