Há um dia no ano que me parece ser diferente dos outros. É único, como se o tempo se dobrasse sobre mim mesmo e me permitisse tocar sua textura. O céu tem um peso específico, a luz pousa nos objetos com uma leveza inédita, a atmosfera carrega um sussurro antigo, quase um aviso. É o dia em que existo com mais intensidade, não porque falo sobre outra pessoa, mas percebo-me como todas as versões dela, variantes de mim mesmo reunidas em um único ponto. Comemorar o aniversário não é apenas marcar uma nova estação da vida; é erguer um pequeno monumento que já foi, mas não pode ser esquecido. A certeza da celebração não reside no número de velas, na presença de outros ou no som tão esperado e comum de felicitações pretéritas, mas ainda presentes. Mesmo que o dia passe em silêncio absoluto, ainda assim ele me pertence, porque o tempo me reconhece e me aproxima de minha mãe. Lembrando minha progenitora, no seu dia 8 de outubro, sinto o peso do caminho percorrido em muitas estradas de diversos formatos, algumas estreitas, outras mais largas. Os anos se desenrolam como folhas soltas de um diário que nunca escrevi, mas que, de alguma forma, carregam minhas impressões e as boas lembranças. Há risos e dores entre as páginas marcadas com palavras e frases ditas por ela e que formam o conjunto da minha existência, repleta de hesitações e certezas, nascidas no meio de esperanças, desalentos ou dúvidas. O tempo não avança de forma linear dentro de mim; ele se espalha como tinta sobre um papel que a lágrima torna úmido, desenhando imagens inesperadas de bela e pura saudade. Recordo momentos que ficaram incrustados na memória, que perseguem o meu olhar quase distraído. A primeira vez que percebi o silêncio de uma manhã sem ela, tento recordá-la a cada aniversário. O som de um riso agradável que pareceu preencher um espaço vazio ainda ressoa e me faz bem. A melancolia de um dia que terminou sem despedidas. Tudo isso, costurado em minha existência, constrói um mosaico que não pode ser desfeito, repleto de outras pessoas que amo e que também têm carinho por mim. O aniversário de dona Maria Nérica torna-se um rito que repete muitos momentos felizes que me servem como aprendizado para o enriquecimento de minha essência. Não importa se é celebrado por multidões ou na solitude do pensamento, ele acontece. A cada ano, trago comigo a confirmação de que sou um conjunto de continuidades e de mudanças, unidos por um grande e preciso fio que liga o ontem ao hoje e me conduz ao amanhã. Minha mãe foi e sempre será a minha melhor professora. No dia seguinte ao do seu aniversário, tudo voltará ao seu curso, como sempre acontece. O sol nascerá sem questionar se eu fiz algo memorável no seu dia ou, simplesmente, senti o passar das horas de mais um “8 de outubro” repleto de boas reminiscências e oportunas saudades. Por esse pequeno instante, ficam a história, a lembrança e a promessa do reencontro. *Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em educação, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras