Saí de uma feijoada beneficente. Igreja Coração de Maria, na Av. Ana Costa. O caminho mais curto era pela porta dos fundos. Dá na Rua Antônio Bento. Eram 13h30. O sol caía reto, sem dó. Asfalto fervendo, calçada branca de tão quente. Eu e minha mulher corremos para a única sombra que vimos: uma árvore grande, tronco grosso, copa aberta feito guarda-chuva. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ali, encostados no muro baixo da igreja, esperávamos o táxi. O muro tinha trepadeiras e umas flores miúdas, roxas. Minha mulher comentava do calor. Eu olhava a rua vazia de domingo, só cortada pelo barulho dos carros que subiam a Ana Costa. Foi quando ela apareceu na esquina. Devia ter 80 anos. Vestido de chita, desbotado. Cabelo muito branco, preso num coque. Vinha devagar, arrastando chinelos de dedo. Sem bengala, sem bolsa, sem pressa. Só ela e o sol. Parou bem embaixo de uma árvore. A dois passos de nós. Aí fez uma coisa esquisita. Olhou para o alto, como se medisse a árvore. Tirou os chinelos. Pôs os dois pés descalços na terra quente do canteiro. Fechou os olhos um segundo. Parecia sentir o chão. Por um instante jurei que ela ia tentar subir. Mas não havia fruta, não havia ninho, não havia motivo. E, convenhamos, 80 anos não é idade para trepar em árvore. Ela fez melhor. Abriu os braços e abraçou o tronco. Abraço demorado, de filha que reencontra o pai. Encostou o rosto na casca grossa. Beijou. Passou a mão para cima e para baixo, devagar, como quem faz carinho em cabelo de gente. Disse umas palavras. Baixinho. De onde estávamos, não deu pra ouvir. Talvez fosse reza. Talvez fosse nome. Talvez fosse só “obrigada”. Ficou assim um tempo que não sei contar. Um minuto? Dois? No sol de 13h30, cada segundo pesa. Depois se desgrudou do tronco. Calçou os chinelos de novo. Ajeitou o vestido. E saiu andando pela Antônio Bento, no mesmo passo lento, arrastado, como se nada tivesse acontecido. Eu e minha mulher ficamos ali, calados. O táxi buzinou na esquina. Entramos. No banco de trás, fiquei remoendo a cena. Estaria agradecendo a sombra? Estaria com saudade de um marido, de um filho, e viu no tronco largo o peito que não a abraçava mais? Estaria só, e achou na árvore uma companhia que não cobra conversa? Seria loucura? Seria lucidez? Gesto de pureza ou de uma fome antiga, de corpo, de pele, que a idade não mata? Ou seria apenas respeito. Um jeito velho, quase extinto, de lembrar que árvore também sente. Que árvore também é mãe. Que árvore também morre de sede e de solidão. Não sei. E não quero saber. O táxi contornou a Praça Independência. A árvore ficou para trás. A velhinha sumiu na primeira quadra. Algumas cenas não pedem explicação. Pedem só testemunha Naquele domingo, fui eu.