A memória não se distribui de forma justa, nem obedece à geografia. De toda a extensão de areia de Santos, vasta e contínua, quase indiferente ao tempo, é sempre ao Embaré que regresso, como se ali existisse um centro silencioso onde tudo persiste. Talvez por ali se cruzem, discretamente, a vida diária e uma história mais funda, feita de camadas raramente visíveis. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Entre 1965, ano do meu nascimento, e 1974, foi nesse trecho que os dias adquiriram uma nitidez particular. Não direi que eram melhores, seria simplificar, talvez apenas mais inteiros. O tempo parecia aceitar demoras, como se também ele se deixasse ficar a observar o mar, esse Atlântico que moldou a vocação portuária da cidade e o seu caráter aberto ao mundo, respirando, simplesmente. E não estava só, nunca estava. A minha santa mãe, de presença firme e serena, e o meu avô Manuel, homem de palavra abundante e gestos largos, quase sempre generosos, acompanhavam-me nesses dias que, vistos à distância, ganham hoje uma espessura inesperada, quase tátil. Com eles, através de lições que nunca se anunciavam como tal, alegria luminosa, boa-disposição, integridade como eixo silencioso e um carisma natural difícil de explicar, iam ficando em mim, sem alarde, como herança invisível, e fui compondo uma forma de estar que se ajusta ao calor humano de Santos. Hoje, quando penso nessa praia, não é a paisagem que primeiro surge, nem o marulhar das ondas, embora esse eco permaneça. É antes uma sensação difícil de fixar, uma constância afetiva, como se aquele lugar tivesse guardado um tempo intacto que já não regressa, mas também não desaparece, com uma nitidez que o tempo não apagou. E talvez seja isso o mais inquietante e consolador: certos lugares não nos pertencem apenas pela presença, mas pela forma como se tornam parte de nós, como uma maré lenta e contínua, e isso, de certo modo, permanece, com uma estranha persistência. E, inevitavelmente, a saudade impõe-se, concreta, dos colegas do Colégio Leão XIII, dos amigos da praia, dos navios a entrarem no porto, do futebol na areia, do mate gelado, do livro depois do banho de mar. Havia, nesse tempo, uma felicidade serena e quase silenciosa, que habitava cada jornada sem necessidade de se anunciar; e eu, sem lhe atribuir nome nem medida, pressentia-a como quem reconhece aquilo que sempre esteve conosco, mesmo antes de termos consciência disso.