A memória coletiva é seletiva. Alguns horrores tornam-se símbolos universais; outros permanecem confinados às notas de rodapé da História. O Holocausto, perpetrado pelo regime nazista entre 1941 e 1945, vitimou cerca de 6 milhões de judeus, além de milhões de outras pessoas perseguidas. É, com justiça, lembrado em filmes, documentários e livros, como um dos maiores crimes contra a humanidade e permanece vivo na consciência mundial. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas o século 20 não inaugurou o extermínio em massa, nem foi o único a produzi-lo. Entre 1885 e 1908, no chamado Estado Livre do Congo, propriedade pessoal do rei Leopoldo II da Bélgica, estima-se que 10 a 20 milhões de congoleses tenham morrido em consequência de assassinatos, trabalho forçado, fome e doenças associadas ao regime colonial. Ainda assim, essa tragédia raramente ocupa o mesmo espaço na memória pública. A mesma pergunta surge diante de outras atrocidades: o genocídio armênio (1915–1917), com cerca de 1 milhão a 1,5 milhão de mortos; o Holodomor na Ucrânia (1932–1933), que matou entre 3 e 5 milhões; o Camboja sob o Khmer Vermelho (1975–1979), com aproximadamente 1,7 milhão de vítimas; e Ruanda (1994), onde cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas em apenas cem dias. Por que algumas tragédias permanecem vivas na consciência da humanidade, enquanto outras são pouco conhecidas? A resposta passa pela influência política, cultural e educacional, pela produção acadêmica, pela cobertura da imprensa e pela forma como cada sociedade constrói sua própria memória. Não deveria, porém, depender da cor da pele, do continente ou do poder dos sobreviventes para contar sua história. O sofrimento não possui hierarquia. Nenhum povo detém o monopólio da dor, assim como nenhuma vítima vale mais do que outra diante da História. Lembrar o Holocausto é um dever moral. Lembrar também o Congo, a Armênia, a Ucrânia, o Camboja, Ruanda e tantos outros genocídios é ampliar esse mesmo compromisso com a dignidade humana. A memória só cumpre seu verdadeiro papel quando impede que o esquecimento escolha quais vidas merecem ser lembradas.