Eu tinha uma máquina do tempo. Ela ficava no meio da minha sala simples, que mal comportava um jogo de sofá. Ainda assim, a máquina era imponente. Tinha cerca de 1,5 metro de largura por 1,6 metro de altura. Era pesada e toda trabalhada em tom prateado. Sempre que uma boa lembrança aflorava no coração, principalmente à noite, quando eu já estava deitado, eu me levantava e ligava a máquina na tomada. Em poucos segundos, ela me transportava para dias felizes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A primeira lembrança me levou a uma viagem. Eu e minha doce parceira seguíamos pela estrada ao som de uma canção de Lana Del Rey. Observávamos, encantados, os eucaliptos que margeavam a rodovia, as curvas da serra envoltas pela neblina da manhã e os pequenos riachos que surgiam entre a vegetação. A paisagem parecia nos conduzir suavemente ao nosso refúgio de descanso. Logo depois, a máquina me lançou para outro momento especial. Estávamos passeando pelo shopping, caminhando sem pressa entre as vitrines à procura de uma boa promoção. Como de costume, fazíamos uma pausa para um cafezinho e dividíamos uma fatia de bolo. Mais tarde, íamos ao cinema. Comprávamos um pacote de pipoca e nos acomodávamos em nossas duas poltronas na fileira K, junto ao corredor. Enquanto as luzes se apagavam, compartilhávamos mais um daqueles instantes simples que, sem que soubéssemos, acabariam se tornando inesquecíveis. Antes de voltar para casa, passávamos na padaria para comprar o lanche. Assim encerrávamos o dia da melhor maneira possível: saboreando algo gostoso e assistindo à televisão juntos. Entre sorrisos e gargalhadas, a noite chegava ao fim. Eu poderia passar horas revisitando aquelas lembranças. Mas, de repente, despertei. Levantei-me da cama e caminhei até a sala. Ainda sonolento, procurei a máquina do tempo. Olhei para um lado, depois para o outro. No centro da sala havia apenas uma mesa com um arranjo de flores. Foi então que percebi que a máquina nunca existira. Era apenas um sonho. Um sonho do qual eu não queria acordar. Ainda assim, enquanto o silêncio preenchia a sala, senti que aquelas lembranças continuavam vivas em mim, como se a verdadeira máquina do tempo fosse a saudade guardada no coração.