(Magnific) Assistindo a um jornal outro dia, prestando atenção na análise feita pela jornalista, toda ela sobre o encontro entre China e Estados Unidos. A análise não era centrada sobre comércio, tarifas, essas coisas de sempre. O foco mesmo era outro: a tal da regulação da Inteligência Artificial. A jornalista falava com uma convicção que me chamou atenção. Sem titubear, ela avaliou que a IA é a maior invenção da nossa era. Aquela certeza da jornalista aguçou a curiosidade. Fiquei me perguntando: será que alguma outra invenção na história mexeu tanto com a humanidade assim? Confesso, sem pudor, que recorri ao bom e velho (???) Google. Aí a resposta veio, meio que atravessando os séculos: Gutenberg. A prensa de tipos móveis, lá no Século 15 ,por volta de 1440 . Faz sentido. Gutenberg não só mecanizou a escrita. Ele quebrou o monopólio da Igreja sobre o conhecimento, deu corda pro Renascimento, pra Reforma Protestante, abriu caminho pra ciência moderna. Tudo porque os livros ficaram mais baratos. As pessoas puderam aprender a ler em massa. O saber deixou de ser coisa de poucos, virou rio que corria pra todo lado. E não por acaso, o primeiro grande livro impresso por Gutenberg foi a Bíblia. Cerca de 180 exemplares foram produzidos, (em alemão, e não mais em latim) espalhando o conhecimento em uma escala inédita. As duas revoluções, no fundo, nascem do mesmo desejo humano de ir além, de expandir a mente. Mas tem uma diferença enorme entre elas. E é aí que mora o perigo. A prensa de Gutenberg descentralizou tudo. Espalhou ideias que nenhum rei, nenhum papa, ninguém conseguiu segurar. Já a Inteligência Artificial segue o caminho contrário: o da concentração. Ela fica trancada em laboratórios fechados, tratada como arma de poder, coisa de supremacia militar. Em vez de libertar o mundo todo, as grandes potências estão correndo pra ver quem tem a IA mais forte. Levantam muros, criam restrições, deixam os países mais pobres de fora das decisões que importam. Gutenberg, sem querer, entregou a chave do conhecimento pro homem comum. Agora, os novos donos do silício trancam tudo em fortalezas digitais. E fica o alerta: se a mente artificial continuar sendo propriedade de poucos, a invenção do século deixa de ser um farol pra humanidade. Vira, isso sim, o abismo mais fundo e mais cruel que já separou as nações. *Marcus Aurelio de Carvalho