(Sílvio Luiz/AT) Em 2011, o então presidente da Ford Brasil, Marcos de Oliveira, afirmou que “o preço alto do carro não é só culpa do imposto”. A declaração desmontava uma narrativa repetida havia décadas: a de que a elevada carga tributária seria a única responsável pelos preços praticados no país. Na mesma época, uma frase atribuída anonimamente a um executivo da indústria automobilística sintetizou a lógica do mercado brasileiro: “Por que baixar o preço se o consumidor paga?” Os números ajudam a entender essa realidade. Enquanto a margem líquida das montadoras em mercados como os Estados Unidos costuma variar entre 2% e 3%, estudos de mercado indicavam que, no Brasil, fabricantes tradicionais operavam com margens próximas de 10%, cerca do dobro da média global, estimada em torno de 5%. Os impostos brasileiros realmente são elevados, representando aproximadamente 32% a 37% do preço de um veículo, mas isso, por si só, não explica diferenças que, em alguns modelos, chegam a superar 200% em relação aos preços praticados no exterior. Durante anos, um mercado concentrado, financiamentos de até 60 meses e consumidores focados apenas no valor da parcela permitiram que preços elevados fossem aceitos sem grande resistência. Em vez de o preço ser determinado apenas pelos custos, passou a ser definido pelo máximo que o comprador estava disposto a pagar. As comparações internacionais reforçam essa percepção. SUVs médios vendidos no Brasil por valores entre R\$ 250 mil e R\$ 300 mil são comercializados nos Estados Unidos por equivalentes a R\$ 80 mil ou R\$ 100 mil, mesmo considerando impostos locais e custos de distribuição. Em diversos casos, o consumidor brasileiro paga de duas a três vezes mais pelo mesmo veículo, equipado com os mesmos itens de segurança, motorização e tecnologia. Essa diferença não pode ser atribuída apenas aos tributos, mas também à estratégia de precificação adotada pelas fabricantes e à disposição do mercado em absorver esses valores. A recente entrada de montadoras chinesas, oferecendo veículos mais tecnológicos por valores inferiores, demonstrou que havia espaço para cortes significativos de preços, algo antes frequentemente apresentado como inviável. A principal lição é simples: em qualquer economia de mercado, o consumidor também define os preços. Quando compra sem questionar, fortalece o modelo vigente. Quando exige melhor relação entre custo, tecnologia e qualidade, incentiva a concorrência e contribui para um mercado mais equilibrado. Afinal, enquanto houver quem pague qualquer preço, sempre haverá quem cobre o máximo possível. *Advogado e portuário aposentado