(Alexsander Ferraz/AT) Mens sana in corpore sano. Aos pés daquela vila, onde desponta um oceano imenso, encontra-se a Cellula Mater, São Vicente, beijada noite e dia pelas ondas do mar salgado. Ali, uma linda donzela apaixona-se por um marinheiro português, vindo de além-mar. De um tórrido romance ele deixou nela uma semente. No entanto o navegador precisou retornar a Portugal, com a promessa de voltar para buscá-la e conhecer o filho. O tempo, para ela, arrastou-se em vagas horas. Consumida pela tristeza e pela solidão, a esperança secou; o ventre silenciou a canção. Passou a conviver com a melancolia e o desequilíbrio da mente. Isolada na orla, escolheu uma formação rochosa como refúgio e dormitório; a Cama Velha. Os anos giraram em torno dela, adormecendo e aprisionando paixões. O feitiço mental a deixou descuidada. Pele castigada, cabelos desgrenhados, vestia apenas farrapos disfarçados de roupa. Solitária, falava sozinha ou com espíritos, acendia fogueiras à noite para acenar aos barcos, assustando os moradores. Amedrontados pelo desconhecido, passaram a chamá-la de velha bruxa. Um dia o tempo amadureceu em excesso. Em sua loucura, avistou um navio ao longe e acreditou ser o amado retornando para reencontrá-la. Na ânsia de poder tocá-lo e beijá-lo, lançou-se ao mar e nadou em direção aos braços que nunca chegaram... acabou afogando-se nas fortes correntezas da Praia do Itararé. Desde aquele dia, contam que, nas noites de lua cheia, da Pedra da Feiticeira ecoam lamentos e gritos de socorro, misturados ao marulhar das ondas. Foi a pena de Olao Rodrigues que narrou essa lenda do século 16; menos de reis e batalhas, mais daquilo que nos governa por dentro. A mente é a essência sutil que molda nossa forma de ser e nossas escolhas. Quando livre, guia com clareza; dominada por sentimentos obsessivos, perde o discernimento. Nesse estado, torna-se um labirinto, onde busca-se a saída sem jamais encontrá-la. A verdadeira liberdade está em preservar a mente das prisões da obsessão. A donzela da lenda encarna o peso da mente aprisionada. A esperança, transformada em delírio, criou um mundo ilusório da volta do amado, encontrando apenas a morte. A lenda da Pedra da Feiticeira permanece como aviso gravado; quando a mente domina a emoção, isso pode tornar-se armadilha. É preciso escolher conscientemente a mudança do pensamento, desapegando da dor e da obsessão, para alcançar a liberdade. Diante de qualquer problema da vida, é necessário harmonizar razão e emoção, permitindo que o amor exista sem se tornar prisão. Mesmo na tristeza, devemos conservar a esperança. Vamos aceitar o riso e a melancolia, conduzindo a vida como um chorinho leve e um fado dolente. Nesse compasso de contrastes, revela-se a beleza do existir. “Na Pedra da Feiticeira, o amor e a loucura sentam-se juntos para olhar o mar. A loucura empresta os olhos para que o amor veja, no vazio das ondas, o navio que nunca virá”. *Jardel Pacheco. Professor, escritor, diretor de Relações Públicas da Contemporânea - Projetos Culturais e membro da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios