(Ricardo Stuckert/PR) Pesquisa Datafolha indica que a avaliação negativa do governo Lula (PT) chegou a 40%, enquanto a positiva recuou para cerca de 29%. Essa queda de popularidade não pode ser simplificada por um único fator. Mas há um conceito que ajuda a entender esse movimento: a Janela de Overton. Criado nos anos 1990 pelo analista político Joseph Overton, o conceito considera que existe um limite para o que é socialmente aceitável: uma régua que vai do impensável ao popular. O ponto central está na volatilidade dessa movimentação: ideias que antes eram aceitáveis podem, com o tempo, passar a ser vistas como radicais e o contrário também ocorre. A agenda woke é um exemplo claro desse deslocamento. O movimento ganhou força nos Estados Unidos a partir dos anos 2010, especialmente com marcos como o Black Lives Matter, e rapidamente se expandiu. O que começou como uma pauta de consciência racial passou a incorporar temas como diversidade, equidade, inclusão, gênero e justiça social. No auge, essa agenda ultrapassou o campo político e chegou ao ambiente corporativo. Empresas passaram a adotar metas de diversidade e critérios de ESG, vinculando essas pautas à reputação e ao desempenho. O que antes era considerado radical tornou-se sensato e, em muitos casos, desejado. Com o tempo, a intensificação da militância e a polarização geraram uma percepção de imposição dessas agendas. O que havia se consolidado como consenso passou a ser tensionado. Esse movimento se tornou mais evidente no cenário político americano recente, com a volta de Donald Trump ao poder em 2024. Isso não é apenas como evento eleitoral, mas um sinal de mudança no ambiente de aceitabilidade. A reviravolta reverberou na América Latina, com Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile e Daniel Noboa no Equador, além de lideranças alinhadas como Santiago Peña. Soma-se a isso a queda de Nicolás Maduro, em um cenário de ruptura. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, inflação, custo de vida, insegurança e frustração com resultados econômicos passaram a dominar o debate. O eleitor deixou de responder prioritariamente a narrativas simbólicas e passou a exigir entregas tangíveis — como encher o carrinho no supermercado. Esse deslocamento cria espaço para discursos mais conservadores, não necessariamente por adesão ideológica, mas por percepção de eficácia. E, às vésperas da corrida eleitoral, o que se observa é o fechamento da janela woke e o deslocamento do eixo do debate. E a janela não se fechou por acaso. Se fechou porque, sem entrega, nenhuma agenda se sustenta. Acordamos da ilusão de justiça social, quando a realidade entrou pela janela, reposicionando o conceito: justiça social deixa de ser ideologia e volta a ser o básico: renda, segurança e comida na mesa. Christiane Disconsi. Jornalista e cientista política.