Há 36 anos, quando o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi criado, ninguém imaginava que uma criança poderia conversar com desconhecidos sem sair do quarto. Que aprenderia a falar com uma assistente virtual antes mesmo de escrever o próprio nome. Ou que sua imagem poderia alcançar milhares de pessoas antes mesmo de compreender o significado da palavra privacidade. O mundo mudou. A infância também. Hoje, basta observar qualquer ambiente. Crianças deslizam os dedos sobre uma tela com a mesma naturalidade com que, décadas atrás, corriam pelas calçadas. Fazem perguntas para a inteligência artificial, aprendem por vídeos, jogam com pessoas de diferentes países e constroem parte das suas relações no ambiente digital. A tecnologia deixou de ser um complemento da infância. Ela passou a fazer parte dela. E talvez esse seja um dos maiores desafios da nossa geração. Durante muito tempo, acreditamos que proteger crianças significava saber onde elas estavam, com quem brincavam e a que horas voltariam para casa. Essas preocupações continuam importantes, mas já não são suficientes. Hoje, muitos dos riscos atravessam a tela de um celular. Cyberbullying, aliciamento, exposição excessiva da imagem, coleta indevida de dados pessoais, desafios perigosos e o incentivo ao consumo fazem parte de uma realidade que exige uma nova forma de cuidado. É comum discutirmos educação financeira, educação ambiental e educação para o trânsito. Mas ainda falamos pouco sobre educação digital. Ensinar uma criança a proteger sua privacidade, reconhecer situações de risco, respeitar o outro nas redes e compreender que nem tudo o que aparece na internet merece confiança tornou-se tão importante quanto ensiná-la a atravessar uma rua com segurança. Essa responsabilidade também não pode recair apenas sobre pais e responsáveis. O princípio da proteção integral, consagrado pelo ECA, sempre deixou claro que cuidar da infância é um compromisso compartilhado. Famílias, escolas, empresas de tecnologia, plataformas digitais, poder público e toda a sociedade têm um papel nessa construção. Não por acaso, o Brasil aprovou, em 2025, a Lei nº 15.211, conhecida como ECA Digital. Mais do que atualizar a legislação, ela reconhece uma realidade: os direitos de crianças e adolescentes também precisam ser garantidos no ambiente virtual, reforçando deveres de proteção, prevenção e responsabilidade compartilhada. Celebrar os 36 anos do ECA é reconhecer que a infância continua precisando da mesma proteção de sempre, ainda que os desafios sejam outros. A pergunta que fica é simples: se nossas crianças já vivem em um mundo digital, será que nós, adultos, estamos realmente preparados para protegê-las nele? *Marcos Vinicios Santos. *Estudante e pesquisador em Direitos Humanos