<p data-path-to-node="1">Conheci Telma de Souza no inicio dos anos 1970, quando eu, ainda estudante de Engenharia, fui convidado por ela a dar aulas no Colégio Ramos Lopez, onde era coordenadora pedagógica. Foi um breve período com pouca convivência: logo nossas vidas seguiram seus rumos e só voltaríamos a nos encontrar em 1982, quando fomos candidatos a vereador em Santos, eu pelo PMDB, ela pelo recente PT, do qual fora fundadora, dois anos antes.</p> <p data-path-to-node="2">Iniciava-se ali longa convivência. A aproximação entre nós foi imediata: embora em partidos diferentes, tínhamos as mesmas ideias e aspirações. Trabalhamos juntos em um sem número de ações e atividades e crescia, a cada dia, minha admiração por aquela mulher destemida, ousada, diferente e divertida. Foram quatro anos de convívio praticamente diário, envolvidos em tantas questões e problemas. Àquela altura, nossa proximidade me levou a mudar de sigla partidária, e fui, com armas e bagagens, para o PT.</p> <p data-path-to-node="3">Antes disso, em 1984, eu já me impressionara com sua força e carisma nas eleições municipais para prefeito, na retomada da autonomia de Santos, quando teve expressiva votação, credenciando-se definitivamente como liderança política. O próximo passo foi sua eleição para deputada estadual em 1986, e em seguida a fantástica e inacreditável vitória na disputa da Prefeitura de Santos em 1988.</p> <p data-path-to-node="4">Eu já me decidira a deixar a vida política e não me candidatei à reeleição para vereador. Mas era impossível ficar indiferente à eleição de Telma de Souza: eu tinha que participar daquela aventura. E assim foi. A Administração Popular Democrática foi uma incrível experiência de criatividade, esforço, luta, travada por uma equipe jovem e plural. Trabalhávamos com vontade, garra e alegria, e a liderança de Telma era fundamental. Ela não era centralizadora ou detalhista: ao contrário, dava liberdade a todos, e o resultado é conhecido: autêntica revolução na saúde, políticas sociais e de educação, obras, assistência social, habitação, além do cuidado com toda a cidade e o entusiasmo constante que fez com que deixasse a Prefeitura com altíssimos índices de aprovação.</p> <p data-path-to-node="5">A força de Telma de Souza é rara e peculiar. Ela não era a heroína perfeita: contraditória e geniosa às vezes, era, porém, uma mulher com ideias e determinada, que adorava a luta política, mas não descuidava da vida privada, do cuidado com as pessoas. Amava viver, ter amigos, com os quais brigava, sim, e foi sempre uma desbravadora de sonhos e aspirações. Seu legado e exemplo vão ficar por muito tempo.</p> <p data-path-to-node="6">Em tempos de tanta discórdia e conflito, o sorriso de Telma é um símbolo. Ela dialogava com todos, conseguia fazer-se entender e ser admirada pelo trabalhador humilde e pelo empresário mais poderoso. Que falta você vai fazer, Telma. E não me venham com a história que ela descansou. Tenho certeza que, onde quer que ela esteja, estará atenta e lutando (sim, senhor!) por todos nós.</p> <p data-path-to-node="7">*Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna</p>