(Matheus Tagé/AT) Pesquisas e estudos comprovam que, no Brasil, o conservadorismo é bastante forte. Basta observar que a maioria dos brasileiros é favorável à pena de morte, contrária às saidinhas de presos que cumprem penas e defensora do porte de armas, aprovando ainda a ação repressiva da polícia. No plano dos costumes, a legalização total do aborto é amplamente rejeitada, as escolas cívico-militares são bem-vistas, e os preconceitos raciais e sexuais, ainda que minimizados nos últimos tempos, seguem presentes na sociedade nacional. Isso explicaria o fenômeno bolsonarista? Em parte, sim, mas há considerações a fazer. Em primeiro lugar, é preciso entender o conservadorismo, distinguindo-o das posições reacionárias. O conservador não é contrário às mudanças nem à evolução natural, mas defende que isso aconteça de modo gradual, respeitados valores e tradições. O reacionário, que se expressa na extrema direita, rejeita, entretanto, qualquer tipo de transformação. Além disso, a extrema direita se caracteriza pelo autoritarismo e pelo desprezo às instituições, com posturas ultranacionalistas, racistas e adotando o culto à personalidade de seus líderes, não hesitando em utilizar a mentira (veja-se Donald Trump nos EUA) e a violência. A ascensão de Jair Bolsonaro no Brasil se deveu à fadiga e ao descrédito da política tradicional, vista como corrupta e nefasta por boa parte da população. É fato, porém, que sua eleição consolidou, de maneira sólida, posições que, embora minoritárias, são abraçadas e defendidas por cerca de 25% a 30% dos brasileiros. A onda de extrema direita em todo o mundo reduziu ainda o espaço da direita tradicional, democrática e liberal, que acabou, de certa forma, capturada pelas atuais forças dominantes neste campo. É possível mudar o atual quadro no Brasil? A população pode ser convencida que atitudes fortemente conservadoras levam à intolerância, à falta de humanidade nas relações sociais, ao retrocesso civilizatório, aprofundando desigualdades e exclusões? Esse é o grande desafio que se coloca nos dias atuais, a exigir respostas e ações concretas. Sempre existirão posições conservadoras, mas é preciso que elas se situem no campo democrático, de respeito aos outros, com diálogo efetivo entre aqueles que pensam diferente. A mudança exige paciência e determinação. É preciso convencer, com fatos, dados e argumentos, que o ultraconservadorismo não leva a lugar algum, só aprofundando problemas e divisões. O papel da política é fundamental nesse sentido, mas também o da sociedade civil organizada, que, por meio das comunicações, da arte, da literatura, da música e da reflexão crítica, deve mostrar a validade e a importância da tolerância e do respeito aos direitos humanos. Direita civilizada, centro e esquerda devem participar dessa empreitada. A esquerda, em particular, deve se desvincular do autoritarismo, como defender, como alguns setores o fazem, Maduro na Venezuela ou Putin na Rússia. Precisa afastar-se também do identitarismo extremado, que só enxerga e valoriza grupos minoritários, em atitude tribal, contradizendo o universalismo, a verdadeira justiça e o progresso. Tal esforço levará tempo e envolverá resistências muito fortes. Mas é o único caminho para um mundo mais justo, sereno e tolerante. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)