(FreePik) Em uma conversa com um feirante, depois de reclamar do preço da caixa de figos, fui surpreendido por uma informação que, confesso, naquele exato momento, dei pouca importância. Segundo ele, a produção de figo, como a conhecíamos, estaria com os dias contados. A oferta tenderia a diminuir cada vez mais e, com ela, os preços poderiam subir a ponto de transformar o figo em uma verdadeira iguaria. Encafifado, fui atrás da informação para confirmar. E, sim, ele tem razão. A redução da área plantada de figo no Brasil, especialmente no estado de São Paulo, não acontece por uma única razão. É resultado de uma combinação de fatores: o êxodo rural, a falta de sucessores nas propriedades familiares e, principalmente, a pressão imobiliária sobre áreas rurais próximas aos grandes centros urbanos. Um exemplo claro está em Valinhos, tradicional região produtora da fruta. Muitas das antigas propriedades rurais estão sendo transformadas em grandes condomínios horizontais. Onde antes havia pomares e pequenas propriedades, hoje surgem ruas, casas e muros. E não é apenas o figo que está desaparecendo desse cenário. Frutas que durante muito tempo encontrávamos com facilidade, inclusive em quintais e áreas urbanas, mesmo aqui em Santos, também estão se tornando mais raras. Pinha, nêspera, a conhecida “ameixa-amarela”, goiaba e carambola, entre tantas outras, fizeram parte de uma paisagem que, aos poucos, foi ficando para trás. Talvez o mais curioso seja perceber que não estamos falando apenas de frutas ou de produção agrícola. Estamos falando de uma mudança na própria paisagem e no modo de vida. O que antes fazia parte do cotidiano e estava ao alcance das mãos hoje começa a exigir procura e, muitas vezes, um preço maior. O desaparecimento dessas culturas também representa a perda de parte da memória das cidades. Pomares cedem lugar a condomínios, propriedades familiares deixam de produzir e conhecimentos que dependiam de uma nova geração para continuar acabam se perdendo. Talvez, por isso, aquela resposta a minha reclamação sobre o preço de uma caixa de figos na feira tenha me feito pensar muito mais do que eu imaginava. Por detrás do valor inflacionado de um fruto que rareia, há uma cadeia de memórias e significados. E nós, testemunhas distraídas, sem compreendermos que, com o seu desaparecimento, também desaparecem todo um modo de vida.