Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais de 2018, Donald Trump ganhou novo mandato em 2024 (foto) e Javier Milei é o presidente da Argentina (Reprodução/X) Não há dúvida de que a extrema direita avança em todo o mundo. Irrelevantes até pouco tempo, os radicais de direita conquistaram espaço e hoje atraem eleitores em grande número. A AfD alemã, o RN francesa, o Vox espanhol e o Chega em Portugal cresceram rapidamente e já rivalizam com os partidos tradicionais. O Chega, nas últimas eleições legislativas, igualou-se ao Partido Socialista, e já é a segunda bancada no Parlamento português. O crescimento da extrema direita pode ser explicado por vários fatores: desilusão e desencanto com a política tradicional, com a revolta contra “tudo o que está aí”, conservadorismo ampliado, uso competente das mídias e redes sociais para propagar suas ideias, a crise e a paralisia que assolam desde a direita moderada à esquerda democrática. Mas cabe perguntar: será mesmo que os extremistas de direita chegarão (ou já chegaram) ao poder? Jair Bolsonaro venceu as eleições presidenciais de 2018; Trump ganhou novo mandato em 2024; Javier Milei é o presidente da Argentina. Não creio, porém, que isso possa representar que os radicais de direita dominam a cena política. Bolsonaro foi eleito em conjuntura muito especial (e perdeu a reeleição para Lula); Milei foi a tábua de salvação para um país em frangalhos, que tentou tudo e nada deu certo; Trump tem características peculiares e sua hegemonia pode ser discutida: perdeu para Joe Biden em 2020 e já enfrenta sérios problemas pelas suas tresloucadas atitudes, a sugerir que perde apoio. Além disso, não poderá ser candidato para outro mandato e é muito duvidoso que possa eleger o sucessor. Há alguns casos emblemáticos: na Romênia, o candidato da ultradireita à Presidência, George Simon, que tinha obtido 41% no 1º turno, foi derrotado pelo reformista Nicusor Simon, que tinha ficado 20 pontos atrás (54% a 46% no 2º turno). Em 2024, na França, nas eleições legislativas, o RN (extrema direita) ficou em primeiro lugar no 1º turno; uma semana depois, no 2º turno, tudo mudou: a esquerda (Nova Frente Popular) elegeu a maior bancada, seguida pelo Ensemble (coligação do presidente Macron), deixado o RN em terceiro lugar. Fica evidente que os radicais de direita assustam os eleitores com seu discurso e prática autoritários, violentos, intransigentes. Em disputas em que só há dois candidatos, os resultados mudam, com o realinhamento dos eleitores rumo ao centro. Pode-se dizer que, em 2022, Lula foi beneficiado por esse movimento, com o apoio (fundamental) de setores de centro e liberais. Deve ser lembrado ainda que, na democracia, há alternância de poder. É comum governos impopulares serem substituídos por seus adversários: assim foi no Reino Unido em 2024, quando os trabalhistas retornaram ao poder, derrotando os conservadores por larga margem. A extrema direita está viva e forte, mas não tão próxima do poder em escala mundial como muitos imaginam. Ainda bem: há bom senso e equilíbrio na tomada de decisão do voto na maioria dos países. *Alcindo Gonçalves é engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT).