Imagem ilustrativa (Freepik) Voltando do trabalho, o semáforo estava fechado e surge um senhor de cerca de 50 anos vendendo balinhas. Já o tinha visto outro dia ali mesmo, com aquela camisa amarela, a bermuda surrada e os chinelos gastos, carregando um jeito humilde, mas um corpo que parecia forte o suficiente para trabalhar em algo mais efetivo. Na primeira ocasião, apenas o deixei passar. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Dessa vez, no entanto, algo em mim resolveu agir diferente. Quando ele se aproximou, baixei o vidro e estendi a mão com um trocado. Ele levantou a caixinha de balas. Eu disse: não, não vou querer. E ele ficou sem entender. Acrescentei: pode pegar (referindo-me ao dinheiro). Ele então, virou um pouco a cabeça, pegou o dinheiro e com uma voz branda disse: “Ah, me desculpe, estou ruim da vista, obrigado”. E seguiu a fila dos carros, oferecendo seu produto. Esse nosso mundo tem vários mundos. Na verdade, cada ser humano é um universo de complexidades, de emoções sedimentadas, vivências singulares que não somos capazes de enxergar de fora. Aquele homem, apesar da aparência de força física, mostrava uma fragilidade diante da vida digna de piedade. “As aparências enganam”. Nem sei quantas vezes ouvi isso. Há ocasiões, porém, em que essa frase parece gritar. Tendemos a medir o valor de uma pessoa pelo status que ocupa na sociedade. Vemos homens que desfilam em ternos caros e se abrigam nos palácios da Justiça, e acreditamos na aparência de seriedade e ética de julgadores intocáveis. No entanto, quando lemos o noticiário, vemos o que resta da liberdade de expressão apresentar fatos que fazem cair as máscaras. A grandeza que exibiam se desfaz diante dos olhos atônitos daqueles que, até ontem, se curvavam diante de sua autoridade. As notícias recentes são como dardos que fazem desmoronar os deuses do Olimpo mundano e que os colocam, em termos de valor moral, abaixo daqueles seres que tantas vezes olhamos como insignificantes. Daqueles que habitam o Congresso Nacional, nem falemos. Desses já não havia aparência sustentável. Da próxima vez que encontrar aquele homem no semáforo, o olharei com outros olhos. Em parte, ele está ali porque políticos e agentes públicos que têm salários invejáveis não se contentam com eles, e muitos recursos deixam de chegar à camada mais vulnerável da população. A ganância do ser humano é insaciável. Mas ele não está desviando ou recebendo recursos escusos, não está roubando comida no supermercado, está ali debaixo do sol, ganhando pouco, mas honestamente. A ética e o valor moral não estão na toga, no cargo, no luxo nem nos discursos pomposos. Estão dentro e se tornam visíveis por gestos e atitudes.