(Gerada por IA) A esquerda já teve dias melhores. Hoje, desmerecida e criticada, vive lá sua crise. De um lado, há a direita mais extremada, que ocupa espaço na opinião pública e não se cansa de atacar. Estudo do Monitor do Debate Político da USP, em parceria com a ONG More in Common, de 2025, mostrou que a direita vê a esquerda contra a família, a ordem e a tradição; a seguir, considera esquerdistas como corruptos, bandidos e a favor da corrupção; e completando, julga-os autoritários, contra a democracia. Nenhuma surpresa até aí. Embora haja gente que rejeita a divisão da sociedade e da política entre direita e esquerda, fica evidente que há pessoas e políticos que têm visões absolutamente diferentes e conflitantes. É claro que, nesse tiroteio, sobra para todos os lados: a direita grita “Vá para Cuba” (agora não dá mais dizer “Vá para a Venezuela”), quase ressuscita o velho bordão que comunista come criancinhas. No outro espectro, a esquerda fustiga: Fascistas, genocidas, criminosos. Não me proponho aqui a exaltar a esquerda, principalmente aquela mais radical, que defende o Irã dos aiatolás, a Rússia de Putin, a China autoritária, ou vê todos os judeus como sionistas perversos e assassinos. Permito-me, porém, resgatar alguns valores fundamentais, e recorro ao grande Norberto Bobbio para distinguir a direita da esquerda. Não se trata de julgamento moral ou de qualidades: a distinção baseia-se na postura diante da igualdade social. A esquerda busca a igualdade e a redução das disparidades, tratando a desigualdade como social, enquanto a direita considera a desigualdade natural ou fruto do mérito, priorizando a liberdade individual e a ordem. A essência da esquerda democrática é defender a democracia e considerar que direitos não são apenas civis e políticos, como também econômicos e sociais. Propõe, sim, transformar a sociedade para que a desigualdade seja reduzida, e que a maioria da população viva melhor. Rejeita o conservadorismo moral típico da direita, e aceita mudanças, além de defender minorias. Há alguns excessos, como o movimento woke, mas, convenhamos, lutar contra o racismo estrutural, desigualdades de gênero, ou garantir direitos LGBTQIA+ não é pauta importante para se alcançar a verdadeira justiça social? Incomoda-me a postura atual dos liberais em relação à esquerda. Eles têm sido duros na crítica: a esquerda seria intransigente, intolerante às causas conservadoras, arrogante como dona absoluta da verdade, recusando-se a distinguir o desrespeito a pessoas da divergência de crenças e valores. É claro que há gente assim na esquerda, mas não creio que se possa generalizar. A esquerda tem história, tem lutas, tem sentido. Erra, como todos erram, mas representa a sincera e genuína crença no humanismo, na maior igualdade e justiça social. Isso ainda é, e sempre será, muito importante. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna