<p data-end="474" data-start="164">Patinetes, bicicletas elétricas e similares não são exatamente novidade. Já circularam pelas ruas em ondas de entusiasmo e esquecimento ao longo dos anos. Desta vez, porém, o retorno veio com um ingrediente inédito: a completa ausência de regras e, ao que parece, de qualquer constrangimento em relação a isso.</p> <p data-end="861" data-start="476">O fenômeno, que poderia ser celebrado como avanço em mobilidade urbana, ganhou contornos curiosos, para não dizer caóticos. Os novos “pedestres motorizados”, como podemos chamá-los por falta de definição melhor, transitam com desenvoltura por todos os territórios possíveis: calçadas, ciclovias, acostamentos, ruas, avenidas e até gramados. Onde há espaço, há algumas rodinhas girando.</p> <p data-end="1229" data-start="863">Na prática, criaram uma categoria à parte. Não são exatamente pedestres, nem bicicletas, tampouco veículos tradicionais. Talvez por isso, circulam como se estivessem isentos das regras que regem esses mundos. Semáforos parecem opcionais. Contramão vira detalhe. Faixa de pedestres passa a ser cenário decorativo. Estacionamento se resume a qualquer canto disponível.</p> <p data-end="1527" data-start="1231">A variedade também impressiona. Há modelos de duas, três ou quatro rodas, pneus finos, médios ou parrudos, equipamentos que mais parecem brinquedos futuristas. Um verdadeiro desfile de criatividade, acompanhado, infelizmente, por uma criatividade igualmente fértil na arte de driblar o bom senso.</p> <p data-end="1644" data-start="1529">Há quem veja nisso apenas adaptação moderna, uma evolução natural da espécie urbana rumo à praticidade sobre rodas.</p> <p data-end="1962" data-start="1646">Para esses, trata-se de inovação, sustentabilidade e até um certo charme futurista desfilando pelas calçadas. Outros, menos otimistas, enxergam algo um pouco mais familiar e menos tecnológico: um retrato ampliado de velhos hábitos nacionais, como o famoso “jeitinho”, sempre pronto para transformar exceção em regra.</p> <p data-end="2118" data-start="1964">Afinal, por que escolher entre calçada, rua ou ciclovia quando se pode ter tudo ao mesmo tempo? Por que respeitar limites se eles parecem tão… limitantes?</p> <p data-end="2357" data-start="2120">Enquanto isso, nas grandes cidades, o já complexo convívio entre carros, motos, bicicletas e pedestres ganha mais um elemento de tensão. E a pergunta que fica no ar: até quando esse novo capítulo da mobilidade urbana seguirá sem roteiro?</p> <p data-end="2525" data-start="2359">No fim das contas, toda inovação é bem-vinda. Mas, sem alguma ordem, até o progresso pode virar apenas mais uma forma, bastante veloz e silenciosa, de desorganização.</p> <p data-end="2583" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2527">*William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor</p>